A COISA À VOLTA DO TEU PESCOÇO – de Chimamanda Ngozi Adichie

Ficha de leitura

Título:                                       A Coisa À Volta do Teu Pescoço[1]                                   

Autor:                                        Chimamanda Ngozi Adichie[2]

Editora:                                     Dom Quixote ©

Tradução:                                 Ana Saldanha

Ano de publicação:                  2012

Género literário:                      Conto

Número de páginas:                224

 

Resumo:

A eclética coletânea de doze contos é a segunda obra que leio da autora Chimamanda Ngozi Adichie. No género conto,  a primeira vez. Chimamanda consegue descrever inúmeras particularidades do modus vivendi na Nigéria e da sua etnia de origem (igbo), uma vez que, numa mesma nação, coexistem várias formas de viver, de pensar e de agir, culturas que se tocam e convivem, mas talvez não se misturem verdadeiramente. Em Angola diríamos: estamos juntos e misturados! (ou não).

Os seus contos espelham a violência presente nas relações humanas, os dilemas que se colocam às mulheres africanas na sua tentativa de conciliar mundos, a imprevisibilidade, cenários aterradores de pesadelo urbano descritos magistralmente, com sobriedade e acuidade. Nem sempre é fácil lê-la, pois se o estilo direto e escorreito torna a leitura empolgante, o conteúdo das narrativas custa a carregar… O leitor é um solitário e nem sempre possui recursos emocionais para se entrincheirar contra a podridão do mundo, refletida também na boa literatura, interventiva, provocadora, intensa. Não sei como, mas Chimamanda consegue relatar as piores atrocidades e dores de existência sempre com uma ponta de esperança, coragem e ternura. Talvez sejam qualidades inatas do ser humano que dá corpo à autora. Os contos refletem a superfície e as camadas mais profundas dos relacionamentos, a maneira como as pessoas se assemelham por este mundo fora e como são também dissemelhantes em pormenores, que advêm de tiques, rituais e mecanismos culturais.

Chimamanda analisa à lupa as tensões existentes no seio do casal, através de personagens femininas inesquecíveis, as expetativas e receios das pessoas em vários contextos (imigração, motins, crises estudantis…).  Algumas narrativas conferem especial destaque à gestão de segredos demolidores,  que envenenam a existência, ao modo como tendemos a ignorar ou dissimular comportamentos potencialmente explosivos, funestos, potenciando situações que escapam ao nosso controlo. É o caso dos adolescentes que são educados com muito poucos limites e quase ausência de regras. Protegidos por famílias talvez demasiado permissivas, embora imbuídas de boas intenções, cultas e elegantes no trato. A pretexto da (saudável) discrição, criam espaço para episódios recorrentes de violência doméstica e comportamentos abusivos, selváticos, os quais rapidamente saltam pela janela e invadem o meio social envolvente, propagando-se como vírus. Cada conto de Chimamanda tem a sua singularidade, mas não vejo vantagem em substituir-me ao papel do leitor recorrendo a descrições exaustivas.

Confesso que o livro superou todas as minhas expetativas, criadas quando li o seu romance Americanah. Por outro lado, o género conto é, por si só, muito maneável e oferece (além do seu encanto intrínseco) a possibilidade de uma leitura rápida entre duas tarefas mais prolongadas. A sociedade moderna força-nos a inúmeras interrupções e os contos, tal como os capítulos de um romance, encaixam-se melhor nesse tipo de exigência. Sobre o conteúdo, diria ainda que a autora demonstra coragem suficiente – e lucidez – para expor criticamente as mazelas e doenças sociais, a insanidade das guerras, o medo paralisante e as alianças espontâneas, na Nigéria e nos EUA, os países que provavelmente melhor conhece.

Dou por mim a refletir sobre vários aspetos que fogem às preocupações quotidianas: a construção da intimidade no casal, a traição e a deslealdade, a autocensura e o silenciamento voluntário, a violência latente na família e na sociedade a pretexto de religião – ou de coisa nenhuma; a condescendência e a maneira como os referentes culturais nos condicionam. Mas também a convivência sã entre pessoas de distintas origens, mesmo quando a religião cultural ou a cultura religiosa apontam para caminhos díspares e sugerem interpretações do mundo desiguais. Há aspetos particularmente tocantes como a solidariedade entre dois seres humanos, no caso, duas mulheres (uma estudante de Medicina cristã e uma vendedora ambulante muçulmana, de etnia hauçá), quando expostos a um perigo extremo, a importância dos pequenos gestos, da empatia, do trivial, como forma de amenizar e diluir as tensões. Trata-se de mecanismos de sobrevivência psicológica que demonstram a extraordinária adaptabilidade das pessoas. Seria impossível indicar todos os pontos de interesse destas narrativas; cada leitor conseguirá espelhar-se em muitas histórias e no que elas representam em função das suas raízes e trajeto pessoal. É um livro para devorar, ler e reler.

[1] Título original da coletânea: The Thing Around Your Neck (HarperCollins Publishers, 2009). Nota: no Brasil, esta mesma obra de contos foi publicada com o título No Seu Pescoço.

[2] Biografia do autor: “Chimamanda Ngozi Adichie cresceu na Nigéria. A sua obra está traduzida para mais de 55 línguas. É autora dos romances A Cor do Hibisco, que ganhou o Commonwealth Writers PrizeMeio Sol Amarelo, distinguido com o “Winner of Winners” (o “Vencedor entre todos os Vencedores”) do Women’s Prize for Fiction, e Americanah, galardoado com o National Book Critics Circle Award. São também de sua autoria a coletânea de contos A Coisa à Volta do Teu Pescoço e os ensaios Todos Devemos ser Feministas e Querida Ijeawele – Como Educar para o Feminismo. As suas obras mais recentes são um ensaio sobre a perda do pai, Notas sobre o Luto; e O Lenço da Mamã, um livro infantil escrito sob o pseudónimo Nwa Grace James. Beneficiária de uma bolsa MacArthur, divide o seu tempo entre os Estados Unidos e a Nigéria”

Fonte: https://www.bertrand.pt/autor/chimamanda-ngozi-adichie/41617

 

 

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Sobre Luisa Fresta 59 Artigos
Luísa Fresta, portuguesa e angolana, viveu a maior parte da sua juventude em Angola, país com o qual mantém laços familiares e culturais; reside em Portugal desde 1993. Desde 2012 assina crónicas e artigos de opinião em jornais culturais, revistas e blogues de Angola, Portugal e Brasil, essencialmente sobre livros e cinema africano francófono e lusófono. Esporadicamente publicou em sites ou portais culturais de outros países como Moçambique, Cabo Verde e Senegal. Em 2021 e 2022 traduziu O HOMEM ENCURRALADO e ESPLANADA DO TEMPO, ambos do poeta brasileiro Germano Xavier (edição bilingue português-francês/Penalux). Em 2022 ilustrou o poemário infantojuvenil DOUTRINA DOS PITÓS, do poeta angolano Lopito Feijóo (Editorial Novembro). Desde 2020 mantém um grupo virtual intitulado ESCOLA FECHADA/ MENTE ABERTA, criado no início da pandemia, destinado a divulgar literatura infantojuvenil e artes plásticas, nomeadamente ilustração, com especial incidência no universo lusófono e francófono. O principal objetivo é consolidar os hábitos de leitura das crianças, estimular a leitura em família e o gosto pelo desenho; e aproximar escritores e ilustradores de leitores e da comunidade escolar. Tem textos dispersos por antologias, alguns dos quais integraram projetos pro bono, e outros premiados em Portugal e no Brasil, desde 1998; assim como um livro de poesia vencedor do prémio literário Um Bouquet de Rosas Para Ti, em Angola, atribuído pelo Memorial António Agostinho Neto (2018). Curiosidade: o poema Casa Materna, que dá título ao livro (originalmente designado por Casa ambulante), foi distinguido com o 2º prémio de poesia internacional Conexão Literária (Câmara Municipal de Divinópolis/Brasil) quando a obra já se encontrava em processo de edição. OBRAS DA AUTORA: Contexturas (contos, baseados em quadros de Armanda Alves, coautora), Livros de Ontem, 2017; Março entre meridianos (poesia, 1º prémio “Um Bouquet de Rosas para Ti”), MAAN, 2018; Março entre meridianos (reedição), Livros de Ontem, 2019; A Fabulosa Galinha de Angola (infantojuvenil), Editorial Novembro, 2020; Sapataria e outros caminhos de pé posto (contos), Editorial Novembro, 2021; Burro, Sim Senhor! (infantojuvenil), Editorial Novembro, 2021; Casa Materna (poesia), Editorial Novembro, 2023; A Idade da Memória (infantojuvenil, contos inspirados na poesia de Agostinho Neto. Coautora: Domingas Monte; ilustrações: Júlio Pinto), Mayamba Editora, 2023; No País das Tropelias e Desventuras (Coleção Capitão/ infantojuvenil), Editorial Novembro, 2024.

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