“Ensaio de um poeta delirante”, um livro de poemas que exprime a métrica e a rima em boa dose de MPB cancioneira

O devaneio pode ser uma válvula de escape para o real estrangulador. Poemas costumam garrotear as asfixias do desejo de correr atrás do sopro, da quina da vontade. No livro “Ensaio de um poeta delirante”(Litteralux, 2026), do autor Fernando Schimidt, a voz do poeta delira vozes e trovas, para um futuro promissor, onde cada ida ou ideia, parece lutar contra semânticas envelhecidas, em tonéis de puro abstracionismo nômade. Entre popular e erudito, Fernando às vezes estetiza o verso; em outras, simplifica a métrica na esteira da MPB. São caminhos trilhados pelo poeta, neste livro sortido com uma boa caixa de guloseimas literárias.

Confira abaixa a entrevista que tivemos com o poeta.

Fernando Andrade

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Fernando Andrade:  Como foi o processo de criação para a elaboração do livro com relação à forma e aos temas?

Fernando Schimidt: Escrevi sobre tudo aquilo que de alguma forma me tocou, me inquietou e me colocou em movimento durante um intervalo aproximado de dois anos, porque a escrita também se trata de um certo chamado, uma necessidade de nos transcrevermos no papel. Fui compondo um poema ali, outro acolá, e quando alcancei uma determinada quantidade, decidi publicar. Ao longo do livro transito entre temas clássicos e contemporâneos, como a problemática da IA, prezando sempre pela espontaneidade poética – mais do que a forma. Me agrada a ideia de rimas, um toque de harmonia nos versos, mas a mensagem, para mim, é o mais importante. Por ser minha iniciação no gênero, busquei explorar diferentes arranjos e estruturas. Experimentei o soneto (embora sem me preocupar com a métrica, é verdade), experimentei poemas de duas, três, quatro estrofes ou mais (e até mesmo apenas uma), num constante exercício de expressar o pensamento em extensões variadas. Como metrificar o pensamento? Isso depende de como nós o reproduzimos em um formato verbal, e, embora a verborragia seja uma tentação e uma feição de quase todo escritor, o desafio da poesia reside em se fazer conciso e resoluto em um oceano de possibilidades.

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[F. A.]:   A linguagem na sua poesia fica entre o coloquial e o erudito. Como trabalhou com ela?

[F. S.]:   É interessante quando ficamos entre dois polos sem que necessariamente assumamos um deles, descobrindo e ocupando, assim, uma nova posição, um novo espaço. Creio que as passagens mais abstratas estejam associadas à subjetividade, o que sempre é difícil de traduzir em palavras, numa linguagem clara e direta. Ao mesmo tempo, busquei estabelecer um contínuo diálogo com o interlocutor, promovendo alguma reflexão ou mesmo provocação – porque às vezes a reflexão vem dela. E para toda e qualquer conversa baseada na oralidade, é preciso ter em mente uma linguagem mais objetiva e acessível. Acredito que a linguagem na minha poesia esteja intrinsecamente atrelada à função.

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[F. A.]:   Com relação às suas leituras poéticas, você se sente influenciado por alguma corrente estética de poesia?  Cite algumas de suas influências.

[F. S.]:   Me considero um tanto eclético neste aspecto. Mais do que a corrente em si, dou valor àquilo que consegue me tocar de alguma maneira. Me encanta navegar por Pessoa, Drummond e Affonso Romano, por exemplo, que vão nos conduzindo pelos versos, discorrendo sobre os assuntos e se estendendo por páginas a fio. O poeta é tentado a vomitar palavras. Também acho formidável Leminski e seus versos sucintos, ao falar muito utilizando tão pouco espaço. Como não se apaixonar pelo tom devoto e confessional de Florbela e Neruda? Esses e outros mostram os variados recursos nesta sedutora tarefa de ordenar as palavras, de construir e desconstruí-las. A música certamente é outra grande influência, bebo muito da fonte daqueles que consolidaram seus nomes no seio da música popular, pois a música é um meio de popularizar a poesia. Mais difícil ainda é ter que pensar na melodia, no arranjo, e fazer as palavras ganharem cadência e ritmo próprio. Como disse em minha Canção a Cartola: “A outrem, delego a função da melodia, / dedilho os versos em forma de disparate.”

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Fernando Andrade, crítico literário.
Autor, entre outros, do livro Obras são morfemas.

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