A adolescência nos anos 80

É bem certo não entrarmos em termos comparativos, qual a melhor época vivenciada por denominada juventude.
Uma vez que meu pai, lá nos anos 80 parecia querer evidenciar após acompanhar uma brincadeira, em que eu e alguns amigos travamos uma batalha nos céus com seus derivados nomes “Pipas, Papagaios, Arraias, peixinhos e capucheta”, disputávamos para quem conseguiria permanecer no ar e não ser cortado pela mal falada linha de cerol, do esquadrão inimigo, que vinha da rua de baixo. Observando a encantadora brincadeira que se une a dinâmica dos ventos, meu pai perplexo constatou ao ver que a finalidade da batalha era cortar a linha da pipa do oponente, fez o breve e interpretativo comentário: – Quer dizer que a brincadeira de vocês é acabar com a brincadeira dos outros? Obviamente que precisaria explicar para papai, que nada mais era do que uma competição, assim como o futebol, o tênis, o vôlei, enfim o importante é competir. Mas para ele, em sua juventude, a brincadeira de empinar papagaios era apenas contemplar a maior distância possível de jardas onde a pipa seria um pontinho no céu.
Essa pequena introdução serve para querer ilustrar o que já se ouviu dizer. Não adianta tentar dizer para um adolescente, tendo razão ou não, que tal época era melhor ou pior, pois sempre haverá o novo. Mas aqui cabe lembrarmos com um certo saudosismo, o que outrora muito nos emocionou, nessa fase da idade de descobrimentos e aventuras.

Em algum momento de um passado não tão recente dos anos 80, onde a garotada lotava as ruas das periferias, com todo tipo de brincadeiras seja de época ou não.
Futebol e as inúmeras brincadeiras com bola, para meninos e meninas, havia as de rodear peão em cela, jogar pagueta com bolinhas de fubeca, amarelinha, pular corda, amizade beijo ou aperto de mão, pega pega, pique esconde, pular cela, etc. Em junho as fogueiras de São João, remetíamos a muitas brincadeiras com fogo. Não esquecendo junho=festa junina=quermesse=Férias Escolares.
Sem entrarmos novamente em questões legais do que outrora era diversão e hoje passou a ser crime. Eu poderia inclusive, por alguns pontos, que defensores de tais brincadeiras criminalizadas teriam pontos interessantes para se analisar em defesa dos balões e de empinar pipas, mas me estenderia muito e o conto que vem a seguir tem outro viés. Mas fica para cabeças pensantes, uma tênue constatação que serve como um início de reflexão. Ambas as brincadeiras se davam apenas no mês das férias escolares, será que criminalizá-las e não discutir atenuantes que reduziriam a quase zero% o número de acidentes a elas atribuídos, segundo conhecidos em comum, defensores da causa, isso seria muito provável.

O conto que será narrado por mim a seguir, trata-se de um altruísmo individual, que como a música de Caetano nos diz “da força da grana que ergue e destrói coisas belas” e onde se curtia tardes e manhãs de fim de semana, hoje não passa de um shopping de automóveis.
Estou exatamente no ponto específico da conhecida Avenida dos Estados, que começa praticamente na Petroquímica e termina no Rio Tietê ou vice-versa. Muitos Paulistanos dizem que seu começo seria na região central, enfim.
A parte dessa historieta, que tem essa desprestigiada avenida como cenário, se passará na parte próxima ao Polo industrial Petroquímico, ou seja, no ABC, das fábricas das fumaças e no último momento em que a malha férrea lhe faz vizinhança.
Teremos que nos reportar a esse pedaço da avenida lá para os anos 80, onde o conto de fato aconteceu.
Nos anos 80 até o seu final de década havia algumas fábricas que beiravam tanto aos trilhos do trem como a própria avenida – Rodhia, Moinho São Jorge, Ciminas, etc. Mas nos seus klms finais apenas o matagal as separava, e é justamente nesse ponto onde lá pelos meus 14 anos de idade, fui convidado para ir nadar na lagoa do Calipal. Não sei o porquê, mas o local era chamado por esse nome; para mim que ia pela primeira vez, tudo era um misto de aventura com pitadas de descobrimentos e um certo medo. Medo esse que era intensificado por amigos que iam a esse local já de longa data. Saindo do nosso bairro e ao atravessar a avenida, havia uma trilha que penetrava a grande extensão de mato que em alguns pontos passava de um metro de altura. Mas a parte do alto matagal que dividia a av. do Estado ao lago onde íamos nadar era uma faixa pequena, mas suficiente para fazer do local um refúgio totalmente isolado da civilização.
Aos nos aproximarmos, nossa galerinha infanto-juvenil de uma dezena de garotos, ouvíamos com muita apreensão o que nos contavam os veteranos do lugar. E assim como quem entra em um cinema para assistir um filme de terror, nosso batimento cardíaco acelerava a cada passo.
Enquanto já conseguimos enxergar à frente um pequeno casebre escondido entre abacateiros e laranjeiras e na parte interna da grade que separava a intrínseca residência do local almejado pela área particular da antiga FEPASA.
Um garoto experiente em muitos atributos de ordem juvenil e o mais velho da turma, apelidado de Bicudo, ia nos revelando detalhes do que se apresentava a nossa retina, minutos antes de chegarmos à desejada lagoa.
Bicudo nos contou, que aquele pequeno casebre era a moradia de um solitário e surpreendente trabalhador responsável não só pelo zelo e manutenção daquela parte da ferrovia, como também era o responsável pela existência daquele pequeno oásis ambiental.
Segundo Bicudo, ele havia plantado não só o abacateiro e laranjeira que abraçavam seu pequeno casebre, mas teria plantado inúmeras culturas ao longo de sua moradia.
Fato esse que ao frequentar esse lindo lugar fora atestado por todos nós. Havia ameixeiras, limoeiros, tomateiros, pés de chuchu, cana de açúcar etc…
Havia uma particularidade que para mim soou, aos 14 anos de idade, a primeira impressão de uma ancestralidade humana que senti, pois o nobre senhor também plantou entre os matos próximos, cordas de feijão e alguns brotos, mas não no intuito da sua própria subsistência, mas sim para que preás ali se reproduzissem. E naturalmente o local depois passou a ter esse atrativo da caça com estilingues.
Além dessas informações que Bicudo nos contava como uma síntese de conhecimento, que cabia ao nosso imaginário pensarmos que havia algum elo de conhecimento entre ambos. Elo esse que começou a se evaporar no momento em que ele começou a falar sobre o espírito antissocial do solitário ambientalista trabalhador. Disse que era para termos cuidado, pois o nobre senhor tinha como única companhia dois ferozes cães e que a menor percepção que havia proximidade humana sobre seu casebre, ele abria uma portinhola para que os cães trafegassem impunes, livres para irromperam do lado de cá do terreno onde haviam o plantio e a lagoa.
Ainda havia um detalhe importante, Bicudo apontando com as mãos nos mostrava que o casebre tinha uma proteção natural. Ao seu redor tanto na parte interna e externa da grade haviam propositadamente ou não, algumas caixas de abelhas que pelo seu conhecimento natural era melhor que passássemos longe, seguido de uma expressão de quem talvez já tivesse vivenciado na pele, o perigo.
A lagoa ficava pouco à frente, aos navegantes de primeira viagem era nos passado algumas recomendações: Não ir de nado até o centro do lago pois havia o que eles chamavam de poço, que, segundo relatos, só nadadores experientes saberiam lidar com a situação; não mergulhar de cabeça de uma pequena barranca, pois poderia estar vazio de acordo com as chuvas; e a dica que a mim me causava mais intranquilidade, era se porventura ali chegassem desconhecidos. Uma vez que não saberíamos a índole dessas pessoas e não haveria ninguém para nos socorrer, pois estávamos no meio do nada. E assim se passou aquele alegre e ensolarado dia de final de semana.
Enquanto os mais experientes atravessavam a pequena lagoa com braçadas firmes, nós, os novatos, recém apresentados àquela quantidade de água furtada, contentávamos em nos divertir mais próximos à borda, pois em alguns passos adentro já não dava pé. Lembro-me com exatidão, que o fundo era de um barro em que nossos pés afundavam, o que também ajudava a aumentar o medo de irmos onde nossos pés não tocavam o chão.
Também tenho a lembrança de ser a primeira visualização de peixes em natura, havia pequenos peixinhos que se mostravam por toda parte. Bicudo também nos informava, após tal constatação, que haviam ali bagres, traíras e também lambaris. Tal afirmação, fora por mim atestado, por que em outras ocasiões, ao chegarmos lá para nadar, o que havia se tornado uma diversão costumeira, não era incomum ver pessoas pescando ali e nos mostrarem o fruto de suas pescas dentro de pequenos baldes.
Certa vez em uma dessas idas ao Calipal, em uma turma de 5 garotos, aconteceu um fato que na época, meados dos anos 80, nos fez termos câimbras de rir. Obviamente que é na adolescência que se começa a formar os princípios todos de caráter, honestidade, humanidade, etc. Mas uma questão parece nessa fase da idade já estar desenvolvida que é o sarcasmo e a fácil transposição do drama para o hilário, a tiração de sarro parece estar sempre presente e bem malhada, já pensaram nisso? Talvez por isso mesmo, com todos os pesares, a adolescência seja uma fase interessante.
Nos primeiros raios solares daquele final de semana nos dirigimos ao Calipal, para colher bambus, para confeccionarmos nossas pipas. Mas pode-se se dizer que todos os cinco ali presentes, éramos de certa forma novatos na ida ao Calipal, não havia conosco naquele momento, nenhum garoto tarimbado, ou seja, que já havia ido uma dezena de vezes por exemplo. Por isso, combinamos ir até o bambuzal fazer a extração de nossa matéria prima e nos retirarmos em seguida, não só com o medo de encontrar o solitário morador do casebre, mas principalmente com seus cachorros, ou até uma turma de desconhecidos barra pesada.

Embora a extração de bambus seja relativamente fácil, são necessários alguns golpes com facão um pouco acima do chão. Sempre golpes precisos e impondo uma certa força, para o destacarmos, seria o suficiente quatro golpes, contanto que queríamos dois bambus para o mês todo, oito golpes e iríamos embora.
Quatro de nós permaneceu ali no bambuzal no intuito de concluirmos com mais pressa possível nosso intento, um dos garotos apelidado de Mironga se deslocou alguns passos à frente se incumbido de nos comunicar qualquer inesperada situação, tendo tanto a visão em nós como no intrínseco casebre. Finalizamos com êxito, talvez alguns golpes a mais do que o planejado. Quando olhamos para Mironga, qual foi nossa surpresa, o velho fazendo de seu bornal de guardar o estilingue, uma bolsinha onde guardava alguns chuchus, tomates e limões.
Fomos embora com os bambus e deixamos Mironga fazendo sua feirinha matinal, pouco depois ele alcançou oferecendo algumas mexericas. Degustando-as, enquanto ao caminhar, combinamos nos reunir após o almoço na parte da tarde para afinarmos os bambus para a fabricação das pipas. E assim foi cada um para sua residência, para se encontrar mais tarde. Lá pelas 13h, ansiosos pela falta de dois dos 5 garotos que foram ao bambuzal pela manhã e para ser feita a divisão igualitária seria necessário que os cinco estivessem presentes. Como eles não apareciam, resolvemos ir primeiro chamar Mironga em sua residência. Chegando em sua casa depois de um breve bater de palmas e alguns chamados de Mironga, Mironga, seu irmão mais velho apareceu e nos disse que ele estava almoçando e nos convidou para entrar.

Foi aí que a cena hilariante aconteceu – ao sermos conduzidos por seu irmão mais velho para esperarmos em frente a TV na sala, o trajeto nos conduzia passando primeiro pela cozinha, onde sua mãe nos convidou para almoçar. Após a recusa e verdadeiro agradecimento, uma breve espiadela automática, notei que seus familiares já a mesa e inclusive eles tinham no acompanhamento do arroz e do feijão, apenas chuchus e tomates, ou seja, o Calipal havia proporcionado a mistura daquele final de semana. Eduardo que me acompanhava em frente a TV, tentava conter-se por também ter notado aquela cena tragicômica.
Também é certo que com os anos, o amadurecimento pessoal nos faz ter um olhar mais de unidade amorosa ao seio da grande família brasileira.
Cláudio Pereira
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Cláudio, gostei muito do seu conto e fui acompanhando o cenário em minha imaginação. E tive muita vontade de conhecer esses lugares.
Esses momentos são incríveis em nossa vida, passei por muitas experiencias como essa e me sinto parte de uma geração privilegiada.