A chuva

A Chuva

Guardei na memória uma lembrança de criança: o som agudo que o trovão tinha lá na casa dos meus avós.
A primeira vez que escutei versos e rimas foi com a minha avó, nordestina de Alagoas. Quando eu ficava sem sono e queria continuar acordado até tarde, ela ficava no quarto recitando versos românticos e engraçados até a gente dormir. Ela sempre começava assim: ‘Guardei meu relógio na casca do caranguejo, pra contar as horas do tempo que não te vejo…’; e assim a noite ia até o sono chegar.
Na data em que escrevo este texto, ela tem 93 anos. Sua memória hoje falha, mas, se peço para ela recitar os versos, ela lembra. E eu sempre vou lembrar.”

 

A Chuva

Já faz aí um bom tempo.
Uma criança à janela
Tentava perceber a chuva
E tudo que ela revela,
Ouvindo o som do trovão,
A água que corria no chão.
Que sensação era aquela?

Ao lado de sua avó
Não ligava de ser tolo.
O tempo era só o tempo.
Rindo de rimas em rolo,
Vindo o sol depois da chuva,
Casamento de viúva.
A casa cheirava a bolo,

A gente lambia a tigela,
Tudo ali era doce.
A tarde caia calma
Na chuva que o vento trouxe
E nunca me dava medo,
Se desse, era segredo
Por todo tempo que fosse.

Tudo era muito grande
O chão, a casa o poço
Tudo era saboroso
Nem o tempo era insosso.
Do jeito que a chuva cai
Ela simplesmente vai
Sem fazer nenhum esforço.

Sem dizer pra onde ia
Só deixava sua lembrança,
Se movia a outro canto
A encantar outra criança.
Quem dera lá pro Nordeste
Essa chuva desembeste.
Diz a vó com esperança.

Junto com ela foi um tempo
Em que tudo era pequeno,
Todo bolo era doce,
Todo olhar era sereno.
O difícil era leve
O demorado era breve.
O adeus era um aceno

Já faz aí um bom tempo.
Exatamente eu não sei.
Um Velho olhando a chuva
Que donde vem não lembrei,
Descobriu que o vento agora
Não só leva a chuva embora.
E que o tempo é sempre Rei

 

William Prado

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