A Cultura Punk nos anos 80 em Sampa

A Cultura Punk nos anos 80 em Sampa

Mesmo que me esforçasse para tentar explicar o que teria sido a causa da mudança do meu amigo Cipriano, ao deixar de lado o movimento e o visual Punk, para usar o mesmo coturno com suspensórios e cabeça raspada ou seja se tornar um skinhead. Eu estaria sendo leviano.
Posso apenas supor que mesmo as grandes convicções e o despertar que a visão do espírito Punk me esclareceu, também se fez notar junto com a descrença de uma sociedade mais justa e igualitária para muitos se tornaram uma quimera com o decorrer dos anos.
Muitos infelizmente viveram no máximo do que os pistols proclamaram, Not Future tendo como exemplo o que talvez tenha sido o punk dos punks Sid vícios ter terminado daquela lamentável maneira.

Acredito que o Cipra assim como muitos outros punks de sampa que conheci teriam ido no mesmo rumo de auto destruição, se não fosse naturalmente ter se apaixonado pela Vera mais uma vez a razão feminina salvando vidas.

Bom, deixando as filosofias a parte, embora me parece que ele tentou pertencer ou formar o que a sociedade tradicional classifica ou chama de família e eu cheguei a ver e visitá-lo dentro desta situação, quando vivia feliz em família logo a nascer de sua filha.
Também antes disso tudo, ainda em sua fase auto destrutiva como punk, presenciei momentos de embates e discussões acaloradas, onde o Cipra, ao discutir e perder feio a discussão, sob o meu ponto de vista, de quem ouve e vê quase como que escuta algo de interesse, lembrando que tinha lá pelos meus 16 anos.

A garota que travava a discussão sobre a importância da família ao qual ela defendia, era uma punk burguesinha do jardim Bonfilioli, que já ido em viagem para a Rússia na época, acho que ainda União Soviética, digo burguesinha pois era uma constatação de todos os punks fora de sua presença. Naturalmente muitos punks simpatizam com o comunismo, mas o conheciam apenas pelos livros. Enquanto ela nos dava detalhes de sua viagem cultural, falando sobre os bolcheviques, os governantes e as impressões que ela teve da extinta União Soviética, sobre a realidade dos pensadores russos.
E enquanto a maioria de nós vínhamos das quebradas em Sampa, e alguns até de bolsões de miséria, digo, porque às vezes íamos visitar alguns bairros de nossos amigos. O jardim Bonfilioli é conhecido por ter moradores de alto padrão. Não que essa situação fizesse com que os punks a tratassem de forma diferente, mas não é preciso dizer, que ela causava um fascínio especial e uma certa rixa com as meninas punks que vinham das periferias e que lá se encontravam.
Sem contar que ela era de uma beleza admirável, usava um corte moicano, tinha cabelos naturais na cor de fogo, olhos verdes, um corpo bem delineado com ancas de modelo, suas roupas sempre detonadas, cintos arrebites fora do padrão conhecido e botinhas all star bem surrados, o que era um prato cheio para críticas das meninas que usavam coturnos e que a classificavam como punk de boutique.
Mas não se enganem, ela era realmente “podre” como os punks gostavam de se auto intitular.

Muitas vezes combinávamos ou casualmente, os punks, nos encontrávamos e íamos beber e beber culminando a bebedeira em algum churrasquinho de terminal de ônibus, onde vinha a Russinha sorver baba de onça como gente grande. Eu que tinha que despedir mais cedo pois além do peso das responsabilidades que meus pais me impunham, tinha que haver um espaço de tempo para outras duas conduções, se não acabaria dormindo na rua ou acompanhar a bebedeira até que pela manhã voltasse a circular os ônibus. Isso não aconteceu se não meu pai me arrancaria o coro. Lembrando para quem não viveu os anos 80, não havia celular, nem Uber e telefone fixo residencial era uma fortuna, onde poucas famílias tinham esse privilégio. Há de se dizer que antes de participar dessas bebedeiras, eu cursava no Colégio tecno Álvares Penteado, no bairro da Liberdade e o motivo que eu e meus pais decidimos para que eu abandonasse o curso, foi um problema sério que me aconteceu sobre esse viés de transporte público das últimas horas, que um dia talvez eu conte para vocês.
Enfim, mas quando bebíamos nos barzinhos arredores da Paulista, era mais tranquilo. Era só eu determinar um horário para ir embora, sem mais delongas me dirigir até a rua Augusta pegar um ônibus elétrico da CMTC, isso mesmo, ônibus elétrico já existia nos anos 80. Ir até a Estação da Luz que já era perigosíssima nos seus arredores naquela época, e isso só intensificou nos anos 90, com a aparição da Cracolândia…da Estação da Luz pegar um trem sentido a Santo André, que passava por várias estações até chegar em Santo André. Eu não me lembro exatamente quanto tempo era esse percurso, mesmo atravessando várias cidades de Sampa em linha reta praticamente o Pé de ferro demorava um pouco, mesmo tendo poucos passageiros nesse horário mais tarde, ele parava em todas as estações que também não me recordo exatamente quantas estações eram.
Chegando à estação de Santo André eu ainda pegava o penúltimo ônibus ou o último, dependendo da “saidera” lá da Avenida Paulista. Esse busao, me levava da estação de Santo André, até a quebrada que mais amo, até os dias de hoje. Conseguia entender em partes o trem das onze do nosso querido e saudoso Adoniram, quando chegava no Parque João Ramalho e via minha Mãe me esperando na janela pronta para me dar um sermão.

(Fonte: PA Images/Alamy)

Mas voltando ao começo do texto, os motivos que as vezes por segundos quase me faziam dormir na rua, eram os bate papos que muitas vezes ganhavam dimensões, crescendo em detalhes, criando conexões inesperadas pela minha idade e inexperiência eu pouco falava, mas absorvia quase como um torcedor.
Obviamente por ser meu amigo mais próximo, o Cipra quase sempre tinha o meu apreço em suas convicções, mas em uma certa noite, onde havia mais o pessoal dos escritórios do que punks e a discussão era sobre os Tfps, que são para quem não conhece, pessoas tidas como fascistas reacionárias, enfim, era unânime que todos ali presentes não gostavam dessa turma.
Mas parece que o machismo é até o feminismo extremo se fez presente quando a Russinha defendeu a família como uma boa tradição. Eu tive a ligeira impressão que todos ali pareciam estar exercendo alguma espécie de preconceito. Óbvio que não era por sua condição social, pois além de usar roupas detonadas, os únicos que sabiam que ela morava em um bairro “nobre” e provavelmente tinha uma família de posses, era eu o Cipra e mais um punk que estava ali, o resto das pessoas que trabalhavam em escritórios próximos, alguns já conhecidos de outros carnavais. O certo é que a russinha foi derrubando um a um com seus argumentos, eu me lembro que meus pensamentos eram de um torcedor Box.
A cada resposta que ela proferia quebrando o inquisidor, às vezes com frases curtas e sutis, eu me desmanchava de prazer e pensava comigo e com meus botões: – “Boa russinha essa foi no queixo”, “Bom jab russinha”, “Nossa essa entrou direto”, “Nocaute sem chance de treplica”, “Podia ter dormido sem essa filha”. Aí pensei ao ver ela sendo fuzilada e meu camarada Cipra não a defender de ataque dos invejosos. Foi quando ele fez uma afirmação de todas as respostas que ela deu naquela noite e que gravei e sempre me vem à cabeça quando ouço sobre o assunto e essa o Cipra, que sempre se posicionou, no mínimo de maneira a se refletir, nem sempre teve a mesma opinião sobre religião, casamento e família. Na noite em questão, ele junto com a maioria dos que estavam ali presentes, para a minha surpresa, lá pelas tantas, fez esta afirmação: – “O casamento é uma instituição falida”.
A resposta da Russinha foi: “Visto como uma instituição pode até ser”.

A beleza dos diálogos e do debate das ideias, poderia ser acalorada, ter ênfase no tom de voz, mas não a cultura do ódio como existe hoje – ficava única e exclusivamente no campo das ideias à qual se acreditava.
Como uma luta de boxe onde os pugilistas se batem o tempo todo, mas se cumprimentam ao final, tendo um vencedor ou o empate.

 

 

 

 

 

Claudio P.

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Sobre Cláudio Pereira 7 Artigos
Cláudio Pereira conta histórias e escreve sobre as cenas culturais dos anos 80, do Movimento Punk na Grande São Paulo. Nasceu em Santo André e viveu lá até os 20 anos, hoje mora em outro estado. Acredita na Democracia, mas enxerga a política com os óculos da Anarquia.

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