AS IDENTIDADES ASSASSINAS – Amin Maalouf

  

Ficha de leitura

Título:                                      As Identidades Assassinas[1]                                 

Autor:                                       Amin Maalouf[2]

Editora:                                    Marcador (Editorial Presença) ©

Tradução:                                Helder Guégués

Ano de publicação:                 2023

Género literário:                      Ensaio

Número de páginas:               159

 

Resumo:

Neste ensaio absolutamente essencial e que transcende a época em que foi escrito (escassos anos após a tragédia do Ruanda) o escritor Amin Maalouf explica e comenta, numa linguagem acessível, límpida, objetiva, o estado do mundo atual e a noção de pertença, em termos culturais, ideológicos, étnicos, religiosos ou políticos.

Questiona o conceito de identidade, quantas vezes equívoco e ambíguo, usado com má-fé, e alerta para os conflitos que pode desencadear. Com numerosos exemplos, que ilustram os seus pontos de vista assentes na lógica, e factos palpáveis, Maalouf analisa detalhadamente a maneira como cada indivíduo se sente mais ou menos próximo de certa ideologia ou doutrina, a importância da língua e da cultura materna, do nosso país ou nação, e das outras línguas e culturas, espaços geográficos ou simbólicos, que abraçamos e adotamos como nossos.

No fundo, trata-se de perceber que proporção dos ambientes em que nos movemos – e com os quais mais nos identificamos – nos são legados pela educação familiar e social. E que outra parte, quiçá mais importante ainda, advém de escolhas próprias. A identidade que reconhecemos em nós é relevante para sabermos quem somos, mas torna-se assassina, demolidora, se for percebida como fator de exclusão e de acusação de tudo o que nos parece diferente.

Estas questões são-me particularmente caras e constituem o cerne de muitas discussões nos meus círculos próximos. Eu própria sou fruto do cruzamento de pelo menos duas culturas, desenvolvi uma relação de proximidade com outras línguas e culturas e conto, no seio da família, com pessoas que vivem em continentes diferentes e se expressam preferencialmente em diferentes línguas também. Este é, portanto, o livro que há muito procurava, e que verbaliza explicitamente, metodicamente, muito do que penso e sinto enquanto cidadã do mundo. Julgo aliás que deveria estar disponível nas bibliotecas escolares, bibliotecas de faculdades e todas as bibliotecas públicas.

Amin Maalouf usa a sua experiência pessoal e exemplos cirúrgicos para explicar o sentido das várias lealdades que nos seduzem e a hierarquia entre essas ligações espirituais e intelectuais entre indivíduos e as suas crenças, línguas, religiões ou culturas. Alerta-nos para o perigo dos radicalismos e aprofunda esse tema observando que, quanto mais um indivíduo se sente agredido ou hostilizado na sua cultura, mais tende a acantonar-se em posições extremas e destrutivas. Devemos concluir que a consciência da identidade é potencialmente perigosa? Não, de forma alguma. Apenas que essa consciência e conhecimento, que podemos escolher consolidar ao longo da vida, não deve, por si só, definir quem somos e como agimos no quotidiano, pois somos, na verdade, a soma de várias pertenças e influências.

Também é importante verificar que, de acordo com o livro e a súmula que faço das ideias destacadas por Maalouf, podemos sentir afinidades diversas em várias vertentes, mas a noção de identidade nunca deve traduzir-se em exclusão ou isolamento, nem conduzir-nos a um ghetto mental emparedado por meia dúzia de dogmas. O autor mostra ter um espírito aberto e tolerante, inteligência social, empatia, situando-se entre o Oriente e o Ocidente. É um ser esperançoso, que, com uma pluma elegante e lúcida, sóbria e incisiva, vai explorando as dúvidas e convicções que cada um de nós possa sentir em relação ao seu lugar no mundo. Maalouf recusa privar-se de parte da sua identidade, auto segregar-se ou inibir-se voluntariamente de existir plenamente, permitindo, ao invés disso, que várias influências e vivências se misturem equilibradamente na sua personalidade, pensamentos e atitudes.

Nada como lê-lo, pois, repito, esta obra, oportuna e atual, parece-me fascinante intelectualmente e útil do ponto de vista da cidadania. Em muitas das premissas julgo notar um cruzamento entre várias abordagens: a da Psicologia, a da Antropologia, da História,  das Relações Internacionais…O autor não se expressa (apenas) como numa aula magistral, mas como um comunicador honesto e eloquente perante uma plateia eclética. O que o preocupa é legitimo; o autor carateriza os problemas, diagnostica-os e propõe pistas para mitigá-los, sem oferecer soluções fáceis nem se perder em utopias que, embora sedutoras, têm o bafo gélido das coisas vãs. O leitor poderá concordar com as análises de As Identidades Assassinas, total ou parcialmente – o meu grau de concordância é quase absoluto – mas não deixará de reconhecer que, de facto, é na raça humana que nos devemos concentrar e é essa que deve definir, acima de quaisquer outras pertenças, a nossa ligação aos outros.

Algumas afirmações e tópicos parecem traduzir o senso comum, o equilíbrio, a ordem natural das coisas da vida. Mas ainda assim é importante que sejam ditas com clareza, lógica e consistência. Oxalá não fosse preciso escrevê-las, insistir nessas ideias. O mundo atual é pródigo em posições extremadas, convicções inabaláveis, muitas certezas (quantas vezes baseadas em informações falsas ou não confirmadas, que não têm qualquer credibilidade, que não resistem a um escrutínio mais aprofundado); é importante que algumas vozes dissonantes nos forcem a pensar – sim, aquela rotina da qual nos temos distanciado de maneira quase impercetível – e a não embarcar em histerismos, em palavras de ordem agudas, incendiárias, a não sermos apenas animais dóceis que seguem a manada.  Maalouf denuncia convictamente a manipulação coletiva das sociedades, dos indivíduos, o oportunismo político, que encoraja a violência entre os homens, a perseguição e a rejeição.

Mais do que comentar ou discorrer sobre As Identidades Assassinas, é importante conhecer a obra e formar uma opinião sobre a nossa representação o mundo. Honrar as raízes, os antepassados, a nossa cultura de origem, o nosso meio natural, abrindo-nos, no entanto, a outras perspetivas sobre a vida, abraçando-as com sinceridade e verdadeiro interesse: será esse o sentido da auto inclusão, em prol da preservação da nossa vida nesta casa comum.

 

 

[1] Título original do ensaio: Les Identités Meurtrières, (Editions Grasset & Fasquelle, 1998).

[2] Biografia do autor: “Amin Maalouf, nascido no Líbano, é jornalista e romancista. Venceu o Prix Maison de la Presse, o Prémio Goncourt, o Prémio Príncipe das Astúrias, o Prémio Calouste Gulbenkian e foi agraciado pela Ordem Nacional do Mérito francesa com o grau de Grande-Oficial. É membro da Academia Francesa desde 2011 e seu secretário vitalício desde 2022. Foi chefe de redação, e mais tarde, editor do Jeune Afrique. Durante doze anos, foi repórter, tendo realizado missões em mais de sessenta países.
A maior parte dos seus livros apresenta um cenário histórico e, à semelhança de Umberto Eco, Orhan Pamuk e Arturo Pérez-Reverte, Maalouf combina factos históricos fascinantes com fantasia e conceitos filosóficos. Numa entrevista, afirmou que o seu papel enquanto escritor consiste em criar «mitos positivos». Escritas com a habilidade de um magnífico contador de histórias, as obras de Maalouf dão-nos uma visão apurada dos valores e comportamentos de diferentes culturas do Médio Oriente, de África e do mundo mediterrânico.”

Fonte: https://www.wook.pt/autor/amin-maalouf/14320

 

 

 

 

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Sobre Luisa Fresta 62 Artigos
Luísa Fresta, portuguesa e angolana, viveu a maior parte da sua juventude em Angola, país com o qual mantém laços familiares e culturais; reside em Portugal desde 1993. Desde 2012 assina crónicas e artigos de opinião em jornais culturais, revistas e blogues de Angola, Portugal e Brasil, essencialmente sobre livros e cinema africano francófono e lusófono. Esporadicamente publicou em sites ou portais culturais de outros países como Moçambique, Cabo Verde e Senegal. Em 2021 e 2022 traduziu O HOMEM ENCURRALADO e ESPLANADA DO TEMPO, ambos do poeta brasileiro Germano Xavier (edição bilingue português-francês/Penalux). Em 2022 ilustrou o poemário infantojuvenil DOUTRINA DOS PITÓS, do poeta angolano Lopito Feijóo (Editorial Novembro). Desde 2020 mantém um grupo virtual intitulado ESCOLA FECHADA/ MENTE ABERTA, criado no início da pandemia, destinado a divulgar literatura infantojuvenil e artes plásticas, nomeadamente ilustração, com especial incidência no universo lusófono e francófono. O principal objetivo é consolidar os hábitos de leitura das crianças, estimular a leitura em família e o gosto pelo desenho; e aproximar escritores e ilustradores de leitores e da comunidade escolar. Tem textos dispersos por antologias, alguns dos quais integraram projetos pro bono, e outros premiados em Portugal e no Brasil, desde 1998; assim como um livro de poesia vencedor do prémio literário Um Bouquet de Rosas Para Ti, em Angola, atribuído pelo Memorial António Agostinho Neto (2018). Curiosidade: o poema Casa Materna, que dá título ao livro (originalmente designado por Casa ambulante), foi distinguido com o 2º prémio de poesia internacional Conexão Literária (Câmara Municipal de Divinópolis/Brasil) quando a obra já se encontrava em processo de edição. OBRAS DA AUTORA: Contexturas (contos, baseados em quadros de Armanda Alves, coautora), Livros de Ontem, 2017; Março entre meridianos (poesia, 1º prémio “Um Bouquet de Rosas para Ti”), MAAN, 2018; Março entre meridianos (reedição), Livros de Ontem, 2019; A Fabulosa Galinha de Angola (infantojuvenil), Editorial Novembro, 2020; Sapataria e outros caminhos de pé posto (contos), Editorial Novembro, 2021; Burro, Sim Senhor! (infantojuvenil), Editorial Novembro, 2021; Casa Materna (poesia), Editorial Novembro, 2023; A Idade da Memória (infantojuvenil, contos inspirados na poesia de Agostinho Neto. Coautora: Domingas Monte; ilustrações: Júlio Pinto), Mayamba Editora, 2023; No País das Tropelias e Desventuras (Coleção Capitão/ infantojuvenil), Editorial Novembro, 2024.

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