C’ÉTAIT ÇA OU MOURIR (Era isso ou morrer) – de Thélyson Orélien

  Ficha de leitura

Título:                                       C’était ça ou mourir[1]      (Era isso ou morrer)                   

Autor:                                        Thélyson Orélien[2]

Editora:                                     Editions Grasset & Fasquelle ©

Ano de publicação:                  2026

Género literário:                      Romance

Número de páginas:                272

Resumo:

O comentário mais apropriado e verdadeiro sobre este romance seria, porventura, apenas isto: era isso ou morrer. A narrativa relata as peripécias de um homem comum, um professor de história e geografia haitiano, que é obrigado a abandonar a sua rotina, em Carrefour-Feuilles (Port-au-Prince), devido à ação devastadora dos gangues, para fugir sem destino preciso, em direção a um ponto indistinto onde ninguém o espera. A escolha de um homem sem alternativas, entre tiroteios e labaredas, é feita sem planear, por instinto: chama-se sobrevivência.

A fuga de Jonas, em condições duríssimas, sub-humanas, através de vários países de uma certa América, descrita, neste contexto, como intensa, traiçoeira, assimétrica ou imprevisível (República dominicana, Brasil, Colômbia, Honduras, México…), prende o olhar do leitor. Jonas acaba por chegar às portas dos EUA, que se transformariam também num interminável corredor rumo à esperança.

O migrante fugitivo, candidato a refugiado ou alguém que solicita asilo político, parece ser, frequentemente, objeto de caça, desconfiança, desprezo e vigilância. Perigos incessantes e ambientes de grande tensão ensinam  ao professor o verdadeiro sentido da vida e o espectro da morte, a solidariedade, o temor, a ternura e o desprendimento, a coragem e a fé, mais por teimosia do que por convicção. O relato é realista e empolgante: traduz-se num texto viciante para o qual queremos voltar todos os dias, para ler mais algumas páginas, mais alguns capítulos, e acompanhar o professor Jonas Dorléon no seu périplo forçado pelo continente americano, procurando apenas sobreviver e um pouco de paz.

O coração endurece-lhe sem perder a ternura, a astúcia aprimora-se, a mentira torna-se um meio de socorro, os sentidos estão permanentemente alerta. Jonas conhece a amizade nos gestos triviais, o amor efémero e platónico, o reconhecimento e a bondade. A maioria das circunstâncias narradas nesta prolongada e aterradora aventura humana parecem impossíveis: quase todas as pessoas que conheço sucumbiriam na tentativa de chegar a bom porto, pois os perigos enfrentados na travessia de cidades, subúrbios, fronteiras e florestas, autocarros sobrelotados com temperaturas vertiginosas ou geografias arriscadas, não são menos mortíferos do que a crise social e a violência assassina que desencadeou a fuga precipitada de Jonas Dorléon.

Este romance, cuja estrutura me parece diferente de outras leituras que me são mais familiares, agarrou-me do primeiro ao último parágrafo. Apesar de ser uma narrativa dramática, o estilo é marcadamente poético, exuberante, com frases contundentes, muito curtas, definitivas, explosivas e emotivas. Os diálogos também são (quase) divertidos, filosóficos e profundos: muitos deles em crioulo do Haiti (sempre com tradução para francês, a língua original do romance), outros em português, em espanhol ou em inglês. A travessia do protagonista – que guarda zelosamente junto a si uma foto da mãe, um caderno de poemas, o seu diploma e um slip –  é também uma jornada linguística; mas ele parece mover-se com naturalidade por todos esses espaços, alegorias e subtilezas, das línguas e das linguagens, entre pessoas irmanadas pela mesma sorte, munidas de esperança e minadas pelo desespero.

O romance enfatiza também a corrupção e a indiferença, a frieza e a mecanização da comunicação, o peso da máquina burocrática e a fatalidade da exclusão. Interroga as sociedades sobre a responsabilidade de cada país na proliferação de armas: aqueles que as produzem e vendem, aqueles que as importam e usam nas guerras civis e nas contendas urbanas, na criminalidade violenta, todos são chamados a refletir.

A narrativa refere a questão da pobreza extrema, os invisíveis, os eternos marginalizados e indesejáveis e a maneira como as pessoas podem encontrar-se subitamente despidas e desapossadas de tudo o que lhes é caro, incluindo a memória, o respeito, a dignidade. Cada migrante desta narrativa vive no fio da navalha. Na caminhada terrivelmente solitária, perigosa e trágica, valoriza cada gota de água, cada gole de café, cada palavra de um irmão de infortúnio ou de qualquer pessoa que mostre simplesmente um pouco de humanidade.

O narrador-protagonista recusa assumir o papel de vítima pura, mas partilha com o leitor o seu cansaço, frustrações e impaciência, o medo da morte e do abandono, da violência e do esquecimento. Mostra também gratidão, responsabilidade e lucidez. Por todos esses motivos, o romance, do meu ponto de vista, é um texto de exceção, maduro e sensível, escrito com energia, garra e emoção, capaz de agradar a milhões de leitores,  entre os quais me incluo. Se lhe dirigisse alguma crítica seria apenas o excesso de metáforas: na proporção certa, engrandecem o texto, de contrário arriscam-se a torná-lo um pouco repetitivo, como uma cantilena ou uma sucessão de tiradas, parábolas ou afirmações carregadas de simbolismo.

Presumo que esta odisseia tenha relação com a biografia de Thélyson Orélien mas também com as vivências de muitos outros migrantes, que lhe teriam confiado parte das suas desventuras, na ânsia de viver com mais segurança, um mínimo de conforto e dignidade. Pessoas comuns, que se sentiram em algum momento objeto de rejeição explícita, como um lixo que se varre para fora de portas.

 

[1] Título original do romance: C’était ça ou mourir, (Les Éditions du Boréal, 2026; Éditions Grasset & Fasquelle, 2026). O romance foi distinguido com o Prémio de Romance Fnac 2026 (Prix du Roman Fnac 2026). Nota: obra ainda não traduzida para português, à data deste artigo.

[2] Biografia do autor “Nascido em 1988 en Gonaïves, no Haiti, Thélyson Orélien é um escritor do Quebec cuja obra explora as pontes entre a memória, o exílio e o sentimento de pertença. Poeta, romancista e cronista, escreve com uma simplicidade luminosa sobre as identidades mutantes e as sobrevivências humanas. C’était ça ou mourir é o seu primeiro romance publicado pela Éditions du Boréal.

Desde a sua publicação no Quebec pelas Éditions du Boréal, C’était ça ou mourir, atualmente em processo de tradução mundial, tem conquistado uma excecional aceitação internacional. Este romance de estreia anuncia uma voz importante na literatura contemporânea”.

Fontes: https://www.grasset.fr/auteur/thelyson-orelien/ e https://www.editionsboreal.qc.ca/fr/auteur/65-thelyson-orelien.html /

Tradução e adaptação da(s) biografia(s): Luísa Fresta

 

Leia também, a propósito deste romance:

https://www.editionsboreal.qc.ca/actualites/17-nouvelle-declaration-du-boreal-au-sujet-de-thelyson-orelien.html

https://www.grasset.fr/livre/cetait-ca-ou-mourir-9782246847069/

 

 

 

 

 

 

 

 

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Sobre Luisa Fresta 63 Artigos
Luísa Fresta, portuguesa e angolana, viveu a maior parte da sua juventude em Angola, país com o qual mantém laços familiares e culturais; reside em Portugal desde 1993. Desde 2012 assina crónicas e artigos de opinião em jornais culturais, revistas e blogues de Angola, Portugal e Brasil, essencialmente sobre livros e cinema africano francófono e lusófono. Esporadicamente publicou em sites ou portais culturais de outros países como Moçambique, Cabo Verde e Senegal. Em 2021 e 2022 traduziu O HOMEM ENCURRALADO e ESPLANADA DO TEMPO, ambos do poeta brasileiro Germano Xavier (edição bilingue português-francês/Penalux). Em 2022 ilustrou o poemário infantojuvenil DOUTRINA DOS PITÓS, do poeta angolano Lopito Feijóo (Editorial Novembro). Desde 2020 mantém um grupo virtual intitulado ESCOLA FECHADA/ MENTE ABERTA, criado no início da pandemia, destinado a divulgar literatura infantojuvenil e artes plásticas, nomeadamente ilustração, com especial incidência no universo lusófono e francófono. O principal objetivo é consolidar os hábitos de leitura das crianças, estimular a leitura em família e o gosto pelo desenho; e aproximar escritores e ilustradores de leitores e da comunidade escolar. Tem textos dispersos por antologias, alguns dos quais integraram projetos pro bono, e outros premiados em Portugal e no Brasil, desde 1998; assim como um livro de poesia vencedor do prémio literário Um Bouquet de Rosas Para Ti, em Angola, atribuído pelo Memorial António Agostinho Neto (2018). Curiosidade: o poema Casa Materna, que dá título ao livro (originalmente designado por Casa ambulante), foi distinguido com o 2º prémio de poesia internacional Conexão Literária (Câmara Municipal de Divinópolis/Brasil) quando a obra já se encontrava em processo de edição. OBRAS DA AUTORA: Contexturas (contos, baseados em quadros de Armanda Alves, coautora), Livros de Ontem, 2017; Março entre meridianos (poesia, 1º prémio “Um Bouquet de Rosas para Ti”), MAAN, 2018; Março entre meridianos (reedição), Livros de Ontem, 2019; A Fabulosa Galinha de Angola (infantojuvenil), Editorial Novembro, 2020; Sapataria e outros caminhos de pé posto (contos), Editorial Novembro, 2021; Burro, Sim Senhor! (infantojuvenil), Editorial Novembro, 2021; Casa Materna (poesia), Editorial Novembro, 2023; A Idade da Memória (infantojuvenil, contos inspirados na poesia de Agostinho Neto. Coautora: Domingas Monte; ilustrações: Júlio Pinto), Mayamba Editora, 2023; No País das Tropelias e Desventuras (Coleção Capitão/ infantojuvenil), Editorial Novembro, 2024.

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