Entre a razão e o bote: os contos de Kalí Gauri investigam os instintos e as contradições do bicho-homem

O bicho-homem trafega numa sociedade de classes, compete, tenta estabelecer seu lugar ao sol. No fim do dia termina com um copo de rum e um gosto insalubre na boca. Os instintos o ajudam a se autoconservar, mas há provérbios que dizem que o bicho-homem, quando perde a calma, estremece, vira animal acuado, com reservas de agressividade. No livro de Kalí Gauri as narrativas-contos seguem uma linha investigativa desta conduta racional mas impulsiva, com algumas neuroses e paranoias. O autor prefere um realismo que beira o insólito em vez de surrealizar o próprio absurdo dos mecanismos de autogerenciamento do espécime estudado. A razão também serve ao instinto: calcula o bote, justifica o dano, encontra um nome aceitável para cada impulso. O desconforto da leitura nasce dessa familiaridade.

Confira abaixo a entrevista que fizemos com o autor.

Fernando Andrade

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Fernando Andrade: Partindo de uma premissa realista, seus contos abordam todos os laços e rastros do humano, sem partir muito para estilos fantásticos e surreais. Talvez um pouco insólito: abrem-se frestas para o incomum, um pouco de dose analítica, tendendo ao estudo da psiquê humana. Como desenvolveu estas narrativas?

Kalí Gauri: As narrativas nascem na fronteira entre a normalidade e o absurdo cotidiano. É uma premissa realista porque as contradições e os territórios obscuros do ser humano já são, por si só, fascinantes e perturbadores.

O tom insólito e o viés analítico surgem de como a mente reage sob pressão — seja pela paranoia, pela solidão ou por desejos reprimidos. O insólito funciona aqui como um espelho deformado que induz o leitor a enxergar aquilo que a rotina tenta esconder.

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[F. A.]:  Por ser um livro extenso com grande números de contos, a variedade e estilos de escrita variam de acordo com o tipo de premissa adotada. Seu domínio da linguagem torna sempre o leitor preso nas engrenagens do texto. Comente seu processo de criação. 

[K. G.]: O processo criativo nasceu da escuta atenta das angústias humanas e da urgência de traduzir a vulnerabilidade em narrativa. Como os contos exploram personagens sob extrema pressão, a linguagem precisava acompanhar esse ritmo. A variedade de estilos reflete a própria pluralidade das frestas e dos abismos que compõem a psique.

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[F. A.]:  Os instintos são a base da conservação do homem. Mas muitas vezes nas relações humanas eles se tornam questionáveis, como o impulso da agressividade. O bicho-homem é um ser em processo de interrogação ou até mesmo de negação. É isso mesmo? 

[K. G.]:  O instinto de conservação e a agressividade muitas vezes colidem com as regras da convivência, transformando o bicho-homem em um ser em permanente estado de conflito e autointerrogação. As narrativas mostram personagens que, ao cederem aos impulsos mais crus — seja pela sobrevivência, pela paranoia ou pela ruptura —, acabam negando ou expondo as frestas da própria humanidade, provando que a civilização é apenas uma camada fina sobre os nossos instintos mais profundos.

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Fernando Andrade, crítico literário.
Autor, entre outros, do livro Obras são morfemas.

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