Desordem: contos escancaram contradições e fragilidades humanas
Coletânea de 50 histórias percorre temas como violência, fé, poder, solidão e justiça para investigar o lado obscuro das relações e da condição humana
A mesma literatura que conforta, pode cumprir a função oposta e retirar alguns dos filtros que tornam a realidade mais suportável. É o que faz o escritor e advogado Henrique German nas páginas de Desordem, publicado pela Literíssima Editora. O contista, membro de instituições como a Academia de Letras do Ministério Público de Minas (MPMG), a Academia Municipalista de Letras de MG e a Academia de Letras de Cordisburgo – João Guimarães Rosa, constrói a narrativa como fragmentos de um espelho quebrado, refletindo, de forma crua, lados obscuros da experiência humana.
Nessa coletânea, German mergulha nas zonas mais sombrias das relações humanas e das estruturas sociais. Os contos falam, dentre outros assuntos, sobre degradação do corpo, hipocrisia institucional, violência, fazer justiça pelas próprias mãos, manipulação e solidão. Ele propõe uma observação direta e desconfortável daquilo que normalmente permanece escondido sob a superfície da aparente ordem.
A perspectiva do autor tem a marca de uma trajetória pouco convencional. Durante décadas, German atuou como promotor e, depois, procurador de Justiça, tendo contato profissional com crimes, conflitos sociais e colapsos morais diversos. Em 2019, uma enfermidade degenerativa acarretou a perda de sua visão. Em Desordem, essa experiência aparece por meio da transformação do olhar: ao perder o acesso às aparências, o contista se aproximou das essências e agora explora uma realidade sem os filtros que habitualmente a tornam mais suportável.
A obra é apresentada por German como uma “oração de São Francisco de Assis às avessas”. Em vez de levar luz onde existem trevas e esperança onde há desespero, o autor faz o movimento contrário para investigar o lado escuro do coração humano.
Onde há luz, levo trevas; onde há esperança, carrego o desespero mais terrível;
onde há alegria, introduzo a tristeza mais dilacerante;
onde há amor, coloco o ódio mais vil;
onde existe fé, planto a dúvida mais incômoda,
porque é morrendo que se vive inferno ainda pior que o da desgraçada vida terrena.

Desordem, p. 10
A intenção aqui, segundo o próprio literato, não é o niilismo, mas o enfrentamento direto daquilo que a positividade contemporânea tende a afastar. Entre os 50 contos, a fragilidade do corpo aparece como uma das faces da precariedade humana e as instituições de poder são colocadas sob escrutínio. A desordem também aparece na manipulação do medo e nos efeitos das transformações sociais.
Apesar da abordagem sombria, o livro não se resume à violência ou à degradação. Em meio às histórias, surgem personagens capazes de pequenos gestos de humanidade, como o pai que tenta salvar a filha durante uma guerra, a mulher que permanece ao lado do marido inválido e a criança de “Nour”, cuja lágrima e generosidade assumem mais peso do que o poder de um rei. Para o contista, esses momentos representam uma luz que não elimina a escuridão, mas nasce nas frestas.
Ao reunir histórias sobre corpo, fé, violência, justiça, poder e relações humanas, Henrique German constrói um compilado forte, que questiona a aparente estabilidade da ordem social. Esta é uma literatura de enfrentamento, na qual a infâmia e a sordidez são apresentadas sem filtros e a condição humana é observada em suas contradições. Em vez do consolo fácil, Desordem aposta na possibilidade de encarar o abismo e reconhecer, sob a superfície da normalidade, a fragilidade que sustenta a existência.
Ficha técnica
Título: Desordem
Autoria: Henrique German
Editora: Literíssima Editora
ISBN: 978-6550796594
Páginas: 456
Preço: R$ 130,00
Onde encontrar: Amazon, Site da Editora e livrarias de todo o país

Sobre o autor
Henrique German é escritor, autor de romances, contos, poesias e crônicas. Ao longo da carreira, também publicou inúmeras obras voltadas ao público infantil. Foi promotor e procurador de Justiça do Ministério Público de Minas Gerais (MPMG) por quase 30 anos. Em 2019, uma enfermidade degenerativa provocou a perda de sua visão. É advogado e membro de instituições como a Academia de Letras do MP de Minas, a Academia Municipalista de Letras de MG e a Academia de Letras de Cordisburgo – João Guimarães Rosa.
Redes sociais do autor: Instagram @henriquegermanescritor
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