
O fazer cinema é uma questão utópica desde sua invenção – Aqui no Vale do Paraíba – Em Taubaté tivemos Mazzaropi, ator, cineasta e produtor, que até hoje nos encanta com um hotel-fazenda dedicado a ele. E nos anos 90, na Fundação Cultural Cassiano Ricardo, que vivia a liberdade das comissões setoriais, entre elas Cinema e Vídeo, com Lucio Carvalho e Itamara Moura. E com a chegada do cineasta Diogo Gomes, vindo de experiências da Boca do Lixo, importante polo de cinema das décadas de 60, 70 e 80 em São Paulo.
Na gestão de avanços de ações culturais de André Freire e Beth Brait… Diogo propôs a criação do Núcleo Ethos e até hoje ecoa o cinema em São José e no Vale.
Abaixo, uma colocação de Diogo Gomes sobre o cineasta Zoran Djordjevic.
Joka Faria, julho de 2026.

Duas ou Três Coisas sobre Zoran Djordjevic
Em 1995, depois da Oficina Básica de Cinema e Vídeo “Um Certo Olhar”, viabilizada pela Comissão de Cinema e Vídeo da Fundação Cultural Cassiano Ricardo, de São José dos Campos, e ministrada por mim, criamos o Núcleo de Estudos, Produção e Difusão de Cinema & Vídeo ETHOS.
O Ethos foi resultado dos esforços para criar na cidade, por meio do processo cultural, um espaço de desejos, onde o mais importante era a vontade coletiva de criar, produzir sonhos e contar histórias por meio das imagens em movimento. Naquele momento, a cidade acabara de aprovar a Lei Municipal de Incentivo Fiscal à Cultura.

Foi então que chegou à cidade o cineasta iugoslavo Zoran Djordjevic, que mal balbuciava algumas palavras em português. Vindo de São Paulo, onde, junto com Daniel Vilela e Luiz Montes, tentava viabilizar um filme em São José dos Campos por meio da Lei de Incentivo, acabou não conseguindo concretizar o projeto.
Depois de conversar com vários funcionários da Fundação, Zoran foi encaminhado pela diretora de Cultura para uma conversa comigo, na tentativa de ajudá-lo a realizar o filme e integrar-se ao novo país. Conversamos e, de imediato, ele começou a frequentar o Núcleo Ethos. Aos poucos, integrou-se aos demais participantes e logo se tornou amigo de todos.
Além disso, Zoran andava muito preocupado, não apenas com a guerra em seu país, mas também com a vinda ao Brasil de seu amigo Vladan Obradovic, diretor de fotografia que ele havia convidado para rodar, em São José dos Campos, o filme A Cidade no Espelho.
Paralelamente às atividades do Núcleo Ethos, eu produzia alguns filmes e convidei Zoran para dirigir um filme institucional. A proposta inicial era realizar um documentário, mas acabamos produzindo um docuficção sobre o período de férias escolares, intitulado Férias na Cidade, uma extensão do projeto municipal “Férias”. O filme representou um avanço significativo, pois uma cidade do interior financiava uma produção que poderia ser apenas institucional, mas que acabou se transformando em uma peça de vanguarda.
Com a chegada de Vladan, veio também a confirmação da inviabilidade da produção inicialmente planejada com Luiz e Daniel. Naquele momento, o Núcleo Ethos vivia um intenso processo de produção, e resolvemos trazer o projeto para dentro do Núcleo.
Estabelecemos diversas parcerias, especialmente com a ECA/USP. Conseguimos uma câmera 16 mm blindada, com motor de velocidade variável, equipamentos de som e dois técnicos para acompanhar a operação. Concluímos as filmagens utilizando a estrutura do Núcleo Ethos, e o filme recebeu um novo título: O Dia em que Olhamos para o Céu. Foi essa versão que teve uma cópia em 35 mm e seu negativo depositados na Fundação Cultural Cassiano Ricardo.
A partir de então, tanto Zoran quanto Vladan Obradovic tornaram-se membros do Núcleo Ethos e permaneceram ligados ao grupo mesmo após o encerramento de suas atividades na Fundação. Tornamo-nos amigos e mantivemos nossa parceria. Em todos os filmes realizados desde então, procuramos registrar, de alguma forma, o nome do Ethos nos créditos.
Pode-se dizer que o Ethos foi o embrião do que hoje é a Film Commission de São José dos Campos, que começa a se consolidar na cidade sob os auspícios da Prefeitura Municipal, por meio da Fundação Cultural Cassiano Ricardo.
Entre os trabalhos que realizamos juntos, três se destacam: o curta-metragem Muros da Vida, premiado no Festival de Cinema Entre Deux… Cannes (anteriormente conhecido como ENTR’2 MARCHES), na seção destinada a filmes voltados para pessoas com deficiência física; Marcos, Força de Vontade, também premiado nesse festival com o prêmio Dôme d’Argent e reconhecido no Festival de Cinema de Moscou; e o longa-metragem Retratos, João Rural, do qual fui roteirista e produtor.
Zoran é um documentarista de sólida formação. Estudou em Praga, na FAMU, uma das mais renomadas escolas de cinema do mundo. Foi contemporâneo de grandes nomes do cinema do Leste Europeu e construiu uma trajetória marcada pelo rigor estético e pela sensibilidade documental.
O último trabalho que realizamos juntos foi Saravá, média-metragem rodado em São José dos Campos, atualmente em circulação por festivais de cinema no Brasil e no exterior.
Zoran chegou ao Brasil como cidadão da antiga Iugoslávia, país que, segundo ele, era “um lindo país” e que acabou sendo desmembrado após os conflitos dos anos 1990. Ainda este ano, deverá voltar a filmar em seu atual país, a Sérvia.
Sobre isso, Zoran costuma dizer:
“À nós, artistas, resta uma única coisa a fazer em nossos filmes: guardar as marcas, as lembranças e os pedaços desse lindo passado.”
Posso afirmar que esse sentimento está presente em todos os filmes que realizamos juntos em São José dos Campos, Brasil.
Diogo Gomes dos Santos

Acesse o canal de Zoran no youtube
https://www.youtube.com/@ZZimagem
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