“Este silêncio que em relâmpagos se desfaz” – Regina Correia

  Ficha de leitura

Título:                                      Este silêncio que em relâmpagos se desfaz                   

Autor:                                       Regina Correia[1]

Editora:                                    Windbalance Lda/ Editorial Novembro ©

Pintura da capa:                      Armanda Alves

Ano de publicação:                 2026

Género literário:                      Poesia

Número de páginas:               147

Resumo: a obra agora dada à estampa compõe-se de 125 textos numerados, predominantemente concisos e despojados, que abraçam diversos eixos temáticos, os quais preenchem “este silêncio” melódico, que, como veremos ao longo do livro, “em relâmpagos se desfaz”. O livro abre com uma epígrafe de Octavio Paz:

Duma palavra à outra

o que digo desvanece-se.

Sei que estou vivo

entre dois parênteses.

Segue-se o prefácio de Ângela Almeida[2] intitulado A dor oblíqua do poema no qual sublinha a morte e os sentimentos que lhe são associados – o luto, a dor, a perda, o abandono. E poderíamos ficar por aqui. Os tópicos que se seguem traduzem apenas a minha perceção do livro – seriam um descarnado rodapé para este texto basilar. Refira-se, antes disso, este excerto do posfácio de Isabel Mendes Ferreira (imf), “um livro grito que nos agita em bátegas de água puras intensas melancólicas doridas”, complemento fundamental para nos acercarmos à obra de Regina Correia: “devolve-nos a certeza sem equívocos. leva-nos ao centro de si mesma e faz das palavras a certeza de um vendaval aceso e sem pausas”, e, mais adiante, “poderoso e poético o verbo da tempestade axiomática que nos é vitalidade”.

Este é um livro para se abraçar, para se acolher, nos acolher. Uma montra de sobriedade e despojamento, que alude candidamente a uma infância remota, pensada e desconhecida. A obra é também um lugar privilegiado de afetos, amor vasto (porquanto ocupa grande parte dos cenários), mas sobretudo de dor, melancolia, e todas as faces da morte. A morte que é memória, consciência e futuro. Insistentemente referida, mesmo que vagamente , ela é também ritualizada ou anónima, em valas (in)comuns. Corporizada no horror das guerras, na banalização da barbárie envolvente, nos despojos e naufrágios, no corpo inerte. As narrativas poéticas escondem-se em labirintos, na noite e no silêncio: como a solidão, o sono, e a insónia se aliam ao manto esfumado da penumbra e das sombras, à treva.

Regina C. traz a evocação do passado, permanente e presente. É um passado aberto e interminável que se prolonga na expetativa do devir. O silêncio ao desvanecer-se é, afinal, voz luminosa. Dignifica a palavra e o poema, todos os poemas, sintéticos e cortantes, cerebrais, lustrosos ou polidos.

LIX

1.

“(…) Cada palavra que escrevo é um ferro em

brasa no labirinto gelado das vozes fora

do seu lugar só devastação dos sentidos (…)”.

P.72

Os textos livremente irmanados libertam-se do supérfluo, sendo embora indistintamente bucólicos, algo surrealistas e expurgados de quaisquer resíduos. Há nestes relâmpagos que redesenham o panorama, uma beleza inata, cerebral, digna e assoladora, descrevendo retas cintilantes que se cortam. Um luz clara definitiva e altiva. São poemas migrantes, como as aves, rudes e imprevisíveis: bichos e feras.

LXII

 “(…) É o poema que desenha a paisagem.

 

As aves de rapina ignoram a falta de

chuva e buscam o eixo do futuro nas

vastas grossas areias entre terra e mar (…)”.

P.75

Regina C. transmuta-se em raízes, terra, mar brabo, rotas e margens, flores e baobás. Tem a cor e a fluidez dos desertos, a aridez estéril dos sítios mais ásperos e inóspitos. A poeta traz savanas e ventos devastadores, precipícios de palavras, a intensidade dos trovões. É moldada por vulcões e ilhas.

LIII

 “(…) Não nasci numa ilha. Mas sou de

ilhas. Das ilhas. De muitas ilhas (…)”.

P.65

O livro é também um cartão identitário, que reafirma a noção de liberdade, com algumas referências bíblicas e laivos de espiritualidade. Regina explica-se e conta-se: apresenta-se. Discreta e secreta, através de uma narradora recolhida, questionando o mundo. Tu e Nós alternam-se em narrativas sincopadas, oníricas e partilhadas, fantásticas e interrogativas. O leitor menos avisado deixar-se-á armadilhar pela surpresa de passar abruptamente da maior sobriedade à exaltação, ao discurso febril: não há meio termo nem paisagens amenas. A poeta critica sem tréguas o discurso inflamado do ódio, a palavra-veneno, a mortal indiferença. Este silêncio que em relâmpagos se desfaz esclarece-nos, incessantemente: o amor chega no Tempo certo – é sempre um enigma – e o poema é sempre secreto.

[1] Biografia da autora. “REGINA CORREIA, luso-angolana, é natural de Viseu. Licenciada em Filologia Germânica, pela Faculdade de Letras de Lisboa, foi professora do ensino secundário em Angola, Portugal e na Alemanha. Autora de prefácios e recensões públicas de livros, tem coordenado projetos culturais e recitais poéticos, sobretudo junto de instituições cabo-verdianas. Publicou sete obras literárias, duas de ficção – “Os Enteados de Deus” (Universitária Editora, 1990) e “Uma Borboleta na Cidade” (Universitária Editora, 2000; Editorial Novembro, 2023), e cinco de poesia – “Noite Andarilha” (Universitária Editora, 1999; Alphabetum Editora, 2012), “Sou Mercúrio, Já Fui Água” (Alphabetum Editora, 2012), “Conjugação de Mapas” (Editorial Novembro, 2020), “No Coração dos Desertos e outros Oásis” (Rosa de Porcelana Editora, 2023), “Este Silêncio que em Relâmpagos se desfaz” (Editorial Novembro, 2026). Venceu os prémios Clarice Lispector “Melhor Poeta do Ano de 2018” e “Melhor Livro de Poesia 2021”, pela Editora ZL (Brasil) e ainda o “Prémio Destaque Literário” (2019), pela Literarte (Brasil). É membro da Associação Portuguesa de Escritores (APE)”.

[2] Poeta e Investigadora (Ph.D).

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Sobre Luisa Fresta 56 Artigos
Luísa Fresta, portuguesa e angolana, viveu a maior parte da sua juventude em Angola, país com o qual mantém laços familiares e culturais; reside em Portugal desde 1993. Desde 2012 assina crónicas e artigos de opinião em jornais culturais, revistas e blogues de Angola, Portugal e Brasil, essencialmente sobre livros e cinema africano francófono e lusófono. Esporadicamente publicou em sites ou portais culturais de outros países como Moçambique, Cabo Verde e Senegal. Em 2021 e 2022 traduziu O HOMEM ENCURRALADO e ESPLANADA DO TEMPO, ambos do poeta brasileiro Germano Xavier (edição bilingue português-francês/Penalux). Em 2022 ilustrou o poemário infantojuvenil DOUTRINA DOS PITÓS, do poeta angolano Lopito Feijóo (Editorial Novembro). Desde 2020 mantém um grupo virtual intitulado ESCOLA FECHADA/ MENTE ABERTA, criado no início da pandemia, destinado a divulgar literatura infantojuvenil e artes plásticas, nomeadamente ilustração, com especial incidência no universo lusófono e francófono. O principal objetivo é consolidar os hábitos de leitura das crianças, estimular a leitura em família e o gosto pelo desenho; e aproximar escritores e ilustradores de leitores e da comunidade escolar. Tem textos dispersos por antologias, alguns dos quais integraram projetos pro bono, e outros premiados em Portugal e no Brasil, desde 1998; assim como um livro de poesia vencedor do prémio literário Um Bouquet de Rosas Para Ti, em Angola, atribuído pelo Memorial António Agostinho Neto (2018). Curiosidade: o poema Casa Materna, que dá título ao livro (originalmente designado por Casa ambulante), foi distinguido com o 2º prémio de poesia internacional Conexão Literária (Câmara Municipal de Divinópolis/Brasil) quando a obra já se encontrava em processo de edição. OBRAS DA AUTORA: Contexturas (contos, baseados em quadros de Armanda Alves, coautora), Livros de Ontem, 2017; Março entre meridianos (poesia, 1º prémio “Um Bouquet de Rosas para Ti”), MAAN, 2018; Março entre meridianos (reedição), Livros de Ontem, 2019; A Fabulosa Galinha de Angola (infantojuvenil), Editorial Novembro, 2020; Sapataria e outros caminhos de pé posto (contos), Editorial Novembro, 2021; Burro, Sim Senhor! (infantojuvenil), Editorial Novembro, 2021; Casa Materna (poesia), Editorial Novembro, 2023; A Idade da Memória (infantojuvenil, contos inspirados na poesia de Agostinho Neto. Coautora: Domingas Monte; ilustrações: Júlio Pinto), Mayamba Editora, 2023; No País das Tropelias e Desventuras (Coleção Capitão/ infantojuvenil), Editorial Novembro, 2024.

2 Comentários

  1. Toda a minha gratidão, querida Luísa Fresta, por esta leitura generosa em que a palavra se desdobra e encontra lugar privilegiado!
    Grata também a entrementes.com.br!

Obrigada pelo seu comentário!