Ficha de leitura
Título: Le clan des femmes[1] ( O clã das mulheres )
Autor: Hemley Boum[2]
Editora: l’Harmattan ©
Coleção/ Edição: Écrire l’Afrique
Ano de publicação: 2010
Género literário: Romance
Número de páginas: 137
Resumo: O primeiro romance de Hemley Boum é um livro que se lê de um fôlego. Abre com uma Nota da autora em que é explicada a razão de ser da obra, baseada nas memórias de uma extraordinária avó, personagem central da história: Sarah. O leitor viaja até uma época remota (a narrativa – honesta, fresca e luminosa – começa no início do século XX e estende-se até aos nossos dias) e mergulha na realidade rural, algures nos Camarões: mas a verdade é que a história não está presa a um espaço físico rígido.
É sobretudo o movimento que é importante: o movimento das pessoas, nomeadamente das mulheres e meninas, seres excecionais, com temeridade e luz própria, correndo incessantemente entre a lavra e as suas habitações numa « concession » poligâmica; os movimentos e eventos familiares e sociais como casamentos, funerais ou o complexo processo da repartição das heranças.
Neste livro, que é, obviamente, ficção, não obstante todos os fragmentos biográficos que contém, podemos encontrar circunstâncias antropológicas e sociais que serão conhecidas do grande público, mas contadas por quem as viveu por dentro e as recorda com um olhar simultaneamente desprendido, distanciado e apaixonado. Todos os julgamentos que o leitor será tentado a fazer não estavam necessariamente ao alcance de quem integrou este ambiente, protagonista ou observador das peripécias descritas.

No romance, a autora, que interroga a avó Sarah, fala-nos da dinâmica de sociedades onde vigora/vigorava a poligamia, prática habitual no ambiente rural africano à época, exterior a quaisquer considerações ou esquemas determinados pela religião cultural. Levanta-se aqui a questão do peso das tradições numa sociedade fortemente hierarquizada onde mulheres e crianças são excluídas da maioria das decisões vitais e são estimuladas a encontrar estratagemas para assegurar a sobrevivência, pelos laços indeléveis da solidariedade.
As coesposas dentro do clã, a sua relação com o marido comum e entre si, a diferença de idades entre as mulheres e meninas e as obrigações diárias para o sustento do clã – que recaem de forma bastante expressiva sobre elas – são aspetos caraterizados com vivacidade neste romance, contados por quem os viveu. No meio da narrativa, curta, mas vibrante e empolgante, lemos sobre a sujeição de meninas pré-púberes em casamentos determinados por membros da família, sem o seu consentimento nem sequer conhecimento prévio, quase como uma hecatombe de proporções devastadoras na pré-adolescência. Imagine o leitor um casamento acordado à nascença da menina para selar uma amizade entre homens ou ainda alianças comerciais ou políticas. A narradora consegue abordar o tema e as suas ramificações com honestidade e responsabilidade, salvaguardando, no entanto, alguns apontamentos sobre ternura, sororidade e proteção eficaz.
Mesmo na época, e naquele contexto, algumas pessoas insurgiam-se firmemente contra certas práticas, como esta (o casamento com meninas pré-púberes). De notar que não se tratava apenas de um casamento arranjado e simbólico, mas de uma presença efetiva da menina – à qual era exigido o mesmo comprometimento e disponibilidade sexual imposto às outras esposas – nos domínios do marido, adulto e bastante mais velho.

Não podendo ceder à tentação de contar todas as histórias dentro do romance, sublinho apenas que outros tópicos, porventura universais, são explorados com grande talento e sensibilidade, quer através das falas das personagens (depoimentos-confidências e viagens pela memória), sobretudo de Sarah, quer pelo texto e reflexões da narradora. Mas se me atardei sobre a questão nevrálgica do casamento precoce foi pela importância que atribuo ao tema, pela maneira como me sinto implicada e mobilizada por uma prática que subsiste nos dias de hoje em muitas sociedades rurais ou urbanas, em microcosmos com laivos de arcaísmo e acentuadamente conservadores, em vários continentes, embora com outros contornos.
Voltando a Le clan des femmes a autora enfatiza a solidariedade feminina, a entreajuda vital, a amizade e cumplicidade. A personagem descrita como « Première Épouse » (primeira esposa), à qual é dedicado um capítulo, é fascinante, uma Mãe universal e protetora, destemida e diplomata. Sem confrontar frontalmente o poder instituído no ambiente local, ela age na sombra, se necessário, mas com determinação, lutando pelos mais vulneráveis, impondo-se contra a barbárie e os abusos, usando, simultaneamente, astúcia, inteligência e sentido de oportunidade. O leitor constatará que, no contexto da época, mulheres e crianças eram parte da herança em caso de morte do patriarca. Nesse sentido, não escolhiam: eram escolhidas e vistas como bens patrimoniais, coisificadas, embora, supostamente, ficassem também sob a proteção do herdeiro.
Também neste romance se exploram as subtilezas do amor romântico, do desejo, da lealdade, por meio do testemunho de Sarah, que relembra a sua vida evocando a esperança férrea, os momentos felizes, a resistência, a aprendizagem, as renúncias e os desencantos; o abandono real ou simbólico, a procriação e as frustrações nascidas da suspeita de infertilidade, a obsessão por gerar filhos biológicos, o peso da comunidade nas decisões e no comportamento social. Sarah é, de certo modo, uma menina-jovem-mulher intemporal, pela maneira como é exposta e vai superando os diversos desafios da sociedade que lhe calhou no sorteio do destino: ela avança, simplesmente.
Le clan des femmes é um romance intimista, comovente e de grande beleza, de leitura agradável, uma narrativa que se torna mais densa a cada parágrafo. O leitor fará a sua própria síntese dos acontecimentos, conduzido pela perspetiva da narradora – e é essa a liberdade que nos proporciona uma leitura em profundidade. Hemley Boum é, sem dúvida uma autora que quero continuar a ler, pelo seu talento, rigor e sensibilidade, e que acaba de lançar (em agosto de 2026) um novo romance, pela Gallimard: Nos Vies Sauvages.

[1] Romance ainda não traduzido para português.
[2] Biografia da autora: “Hemley Boum é uma novelista e romancista dos Camarões (Duala, 1973). Estudou Ciências Sociais na Universidade Católica da África Central em Yaoundé e Comércio Exterior na Universidade Católica de Lille. Bibliografia: Le Clan des femmes, Paris, L’Harmattan, « Écrire l’Afrique », 2010, Si d’aimer…, Ciboure, La Cheminante, 2013, Le rêve du pêcheur, Collection Blanche, Paris, Gallimard, 2024, Les jours viennent et passent, Collection Blanche, Paris, Gallimard, 2024, Les maquisards, folio, 2026, Nos vies sauvages, Collection Blanche, Paris, Gallimard 2026. Galardoada com o prémio “Prix des Cinq Continents de la Francophonie, édition 2025” pelo seu romance Le rêve du pêcheur”.
Fontes: Wikipédia, Gallimard, Wook, l’Harmattan
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