Ficha de leitura
Título: MATÉRIA NEGRA
Autor: João Fernando André (Kalunga[1])
Editora: Perfil Criativo – Edições ©
Coleção: Poesia no Bolso
Ano de publicação: 2026
Género literário: Poesia
Número de páginas: 52
Resumo: O mais recente poemário de Kalunga[2] reúne mais de quarenta textos num livro-objeto de valor estético inegável, minimalista, sóbrio e delicado. Lê-se também pelo toque e cabe no bolso: é pouco maior do que um telemóvel; e friso-o por atravessarmos uma época em que muitos de nós lemos poesia neste formato e neste suporte. Porém, a luz que emana dos textos de MATÉRIA NEGRA só é suscetível de ser regulada pela recetividade do leitor e pela sua apetência para absorver as alusões enigmáticas, sedutoras e desconcertantes, tão caraterísticas de Kalunga.

Não é um livro barulhento: é, ao contrário, um puzzle de silêncios acorrentados uns aos outros onde se murmura e se alude à sociedade devoradora na qual nos enredamos atabalhoadamente. Mas trata também de amor e desejo, do planeta e de mistério, com códigos secretos ou dissimulados em pequenos diálogos intertextuais (“…No espelho do verão/ Verão/ Eles passarão na matéria/ Eu passarão alquimista…”). Todo o livro se assemelha a minúsculos fragmentos de cristais, compondo uma teia de cores e luzes através da leitura. Li-o de todas as maneiras possíveis: folheando-o primeiro com curiosidade, deslizando por ele, escutando as palavras, as reticências; correndo atrás dos versos e procurando o eixo de cada texto, o verso destacado a negrito, as mil e uma minudências que, afinal, são a alma de cada poema-conversa-sussurro-objeto de contemplação.
Sem surpresa encontramos o tom da crítica social e do neoliberalismo selvagem, algo intrínseco em Kalunga, mas também uma linguagem mais metafórica que nos arranca ao marasmo com luvas de seda. O poeta exalta o valor da paz e da liberdade, flerta com o ecopoema, glorifica a água em todas as suas manifestações e desilude-se com a depredação do planeta. Por outro lado, MATÉRIA NEGRA propõe-se encorajar o diálogo intergeracional, a fraternidade sem preconceitos, valorizando a ética e o espaço que ocupa o Tempo, ouvindo o sofrimento do mundo com humanidade. O texto é um manto de subtilezas e pequenas alusões, tão amenas na forma como vigorosas no fundo e na intenção.
Para além disso o poeta namora insistentemente a palavra. Já nos habituou a pequenas recreações – e recriações – que o leitor descobrirá verso a verso. As escolha judiciosa do negrito e a forma “i” em substituição de “e”, conjunção coordenativa, são pequenos sinais luminosos que Kalunga oferece, alguns dos quais descodifica em textos de apresentação, como a questão das reticências.
“(…) dediquei-me a ter uma visão multidisciplinar, estudar as terríveis histórias do mundo. Das ideias do surgimento do homem ao surgimento da propriedade privada. Da produção de bens à produção do mal. Da criação dos capitais à obsolescência programada. Dos erros dos julgamentos humanos aos preconceitos(…).” – diz o autor no seu texto lido perante o público presente no lançamento da obra.
A comunicação de Ana Mafalda Leite[3], que ouvi na VOZ DO OPERÁRIO[4] (no dia inaugural de MATÉRIA NEGRA), é também de leitura obrigatória, pela sensibilidade e rigor com que analisa e expõe sem “escancarar” esta encruzilhada poética de Kalunga. O leitor tanto pode começar a abordagem à obra pelos poemas (curtos, laminares), para se impregnar de cada um deles – da atmosfera, da envolvência -, como pode entrar no ambiente pelos textos de apresentação. Cada escolha lhe irá proporcionar experiências distintas.

Os textos de Kalunga abrem-se sobre o terreno da memória, da observação, do sensorial também. Apresentam-se por vezes em tom da confissão íntima, terreno híbrido entre o real e o imaginado, oficina do pensamento, onde a plasticidade da palavra nos conduz à ideia seguinte, ao próximo verso, às nossas próprias referências. O poeta labora na continuidade e homogeneidade, assegurando uniformização na linguagem. Outrossim, fomenta a dispersão das ideias, evocações etéreas e translúcidas. É uma voz polifónica que hierarquiza sonho, memória e auscultação. A vida corre dentro e fora do sujeito lírico: sente-se e observa-se. É objeto de registo e julgamento: depois entranha-se na concisão das palavras.
Este livro reconstrói e reconfigura identidades, usa experiências amovíveis que replanta e adapta. Assemelha-se a uma janela por onde se vislumbra um laboratório de sentimentos e leituras microscópicas de um mundo em plena efervescência.
“…. Agarra três lágrimas
Tempera-as com trovoadas
Planta-as no céu
Vai
Tens um rio escondido no rosto (…)”
P.24

A língua portuguesa acentua-se em ritmos, sotaques e melodias diversas. Oscilando entre a elegia e a fotografia da ruína, por meio de um estilo mormente mordaz e ácido, Kalunga escreve com todos os sentidos. A sua poesia, em plena maturação, redescobrindo sempre novos caminhos de penumbra e nuvens recortadas sobre a luz solar, revela aguda lucidez, benevolência, e traz, ao mesmo tempo, o caos e a mansuetude.
Tudo nele são raízes e um desassossegado nomadismo, viagem, movimento e permanência. A palavra encontra abrigo no verso e no desenrolar do poema, qual tapete persa deslumbrando o leitor.

[1] “(…) Kalunga é o cognome do angolano João Fernando André. Escritor, consultor cultural e professor de língua portuguesa e literaturas(…)”. – excerto da apresentação do autor na badana do livro.
[2] Dedicado ao malogrado poeta Gonçalo Domingos Salvador Quizela (Handyman).
[3] Poeta e ensaísta. Professora universitária na FLUL – Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.
[4] https://www.vozoperario.pt/
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