A medida da palavra não cabe medida. A palavra cedida ao conto é de uso restrito ao criativo e original. Se você quer usar uma luva de boxe, deixe-a pronta para o nocaute — o nocaute das palavras apronta para dar ares de surpresa. Os minicontos de “Retratos” (Litteralux, 2026), do escritor jjLeandro, movimentam-se não a passos lentos, mas com a agilidade verbal de um pugilista com mãos certeiras para um soco progressista. A violência física e moral, a desigualdade social, os desvalidos de qualquer ajuste social, tudo singularizado na pena exímia do autor. A cereja do bolo é oferecida sempre no finzinho dos textos — pequenas ficções que deixam o leitor de boca aberta, desconcertado com a força inventiva deste livro.
Confira abaixo a entrevista que tivemos com o autor.
Fernando Andrade
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Fernando Andrade: Seus contos crescem graças à agilidade de alguns aspectos literários, como concisão, surpresa e criatividade. O que leva você a priorizar estas características de estilo?
jjLeandro: Esses três itens são essenciais em contos que são extremamente curtos. A meu ver, o corpo do texto necessita de uma amarração que costumo dizer tem que ranger como corda apertada em madeira que se movimenta, nenhuma palavra em excesso que o torne frouxo e desinteressante; nenhuma faltando que o faça desmoronar. A surpresa é um nocaute no leitor, não para pô-lo à lona senão para deixá-lo em estado de suspensão diante do inusitado. Para um desfecho surpreendente, a criatividade é indispensável, e ela é de difícil execução. Já pensou a maioria dos textos valer-se desse artifício? É algo de elaboração complexa porque exige em poucas palavras expressividade e coerência, mas compensador para leitor e autor quando alcançada. Por outro lado a criatividade é um adicional de suprema importância que torna um texto que poderia ser desinteressante se escrito ordinariamente atraente ao leitor desde o início, haja vista existir uma gama enorme de talentos na literatura no Brasil produzindo textos muito bem escritos. A criatividade vai distinguir seu trabalho dos demais. Realizar isso tudo demanda muita dedicação à leitura, porque o escritor — sempre digo —é antes de tudo leitor. E eu sou um leitor voraz.

[F. A.]: Há certas pulsões que chegam à violência, mas funcionam como fatalidade — como se a vida fosse um caminho para o fim. A morte é uma presença, não só física, mas também figurada.
[jjL]: O ato de escrever é consequência de minha leitura do mundo, oferecendo ao leitor a interpretação do que leio e do que vejo. E o que me toca fundo em tudo isso é a desigualdade que a sociedade gera nas relações entre as pessoas. Essa desigualdade mantém-se à custa de muita exploração, ainda que de tão naturalizada só olhos apurados a vejam manifesta. São violentos às vítimas do desajuste social os mecanismos que tornam semelhantes em desiguais, estratificados. E isso ao custo de duas mortes para a maioria, a social e a física. Essas vítimas são na maioria de meus contos os protagonistas. Como João Gilberto Noll, relatado no posfácio de Educação Natural por Edson Migracielo, também me interessa ‘o aspecto trágico da existência’. A leitores não acostumados a textos inusuais, isso pode causar impacto. Mas isso é também processo literário. Tudo que diz respeito à vida humana é material literário, facultado ao autor utilizá-lo ou não. É onde mais busco trabalhar. Em contos sumários, a meu ver esse impacto é necessário.

[F. A.]: Nos contos, o efeito do nocaute, como preconiza Cortázar, advém do suspense da leitura graças a um texto bem escrito, surpreendente e original. Como funciona essa química entre autor e leitor?
[jjL]: Quando escrevo, estou obviamente pensando também na aceitação do leitor, como será recebido por ele. Porque por outro lado, claro, há a satisfação do autor com a execução de seu trabalho. A primeira avaliação é feita pelo eu-leitor; eu, leitor e crítico de mim mesmo. Meus pressupostos são também os defendidos por Cortázar de tornar o óbvio, o trivial, uma curta e grande história. Outro autor foi de grande importância nesse processo, João Gilberto Noll, que já citei acima, mestre nas narrativas sumárias que intitulava ‘instantes ficcionais’. Então, enquanto leitores, somos influenciados pelo que lemos e quando escrevemos igualmente colaboramos na elaboração da visão de mundo do leitor. E esse processo é de alimentação constante. Há em “Retratos” alguns textos em que jogo luz sobre a interação de autor e leitor. Acredito que a química funciona com o leitor quando ele é capaz de gerar sua própria interpretação do que leu. Eu quando leio, não raro paro a leitura, pego o celular, acesso o Messenger (onde costumo escrever as histórias breves) e a palavra ou a cena descrita no texto me remete à criação de uma história cuja única proximidade com a que li é buscar transformar o trivial atraente aos olhos de quem lê. Portanto o leitor quando tocado pelo que lê é capaz de interpretar o texto à sua maneira, a química aconteceu. Em Retratos, no conto Interpretação abordo essa transformação: “Foi sumindo em palavras e imagens consumidas por olhos atentos até que ao ponto final migrasse completamente para a mente de quem lia, assumindo outra forma.”

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Fernando Andrade, crítico literário.
Autor, entre outros, do livro Obras são morfemas.
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