O tempo não volta mais. Não podemos corrigi-lo. Se lembrarmos da nossa ditadura onde presos políticos foram torturados e mortos, pensar nisso pode ser bem controverso. A despeito dessa herança histórica, no presente temos que lidar com governos de extrema direita, a nível mundial, assumindo países com tradições democráticas. No romance “Inventário de um silêncio” (Litteralux/Selo Auroras, 2026), da escritora Sandra Godinho, dois irmãos duelam através de um jogo de consciências entre a responsabilidade histórica em face a um passado de barbárie. Um dos irmãos está desaparecido (do Brasil ou da vida?) e sua narrativa é construída por meio do fluxo de consciência, expondo seus pensamentos alinhados à frente progressista, frontalmente contrária à violência do estado. O outro, um empresário, desfruta de sua liberdade graças à submissão a uma política extremista, violenta. Sandra Godinho controla com pulso firme uma narrativa polifônica na qual vozes duelam entre a memória coletiva e o narcisismo capitalista, predatório. Murilo e Joel são antípodas de um tempo binário, feito de antagonismos que ainda vicejavam em nossos dias.
Fernando Andrade
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Leia abaixo a entrevista com a escritora Sandra Godinho.

Fernando Andrade: Polifonia. É esta palavra que vem aos me referir a seu romance. As vozes dos dois grandes personagens num quase duelo metafísico sobre desejo, liberdade, violência do Estado, colocam o leitor no meio deste embate. A proposta vai além da simples tomada de posição, seja qual for o lado político de seus personagens. Para onde aponta essa narrativa tão dialética?
Sandra Godinho: Ou talvez seja o caso de se posicionar [risos]. Quando imaginei o personagem Murilo eu o vi como um homem clivado e atormentado pela culpa, um empresário bem sucedido e respeitado por todos, aproveitando as oportunidades proporcionadas pela vida sem pestanejar, mas fragilizado pelo remorso, a tal ponto que, a certa altura, ele alucina sobre o irmão ausente, projetando neste delírio aquilo que o atravessa e que o faz confrontar-se consigo, seu passado e seu presente. Como todo narrador em primeira pessoa, ele não é confiável. Cabe ao leitor inferir o que é, ou não, verdade; o que é, ou não, mau-caratismo e oportunismo. É ele falando a verdade ou o que ele internalizou como sendo verdade? O embate de Murilo é também o embate do leitor e, neste viés, cabe ao leitor se posicionar ao se pôr em seu lugar. Acho que é esta a grande sacada nesta construção.

[FA]: A presença física de Joel, desaparecido, parece ao leitor um corpo presente, vivo, tamanha a densidade do seu fluxo de consciência na história. O que presenta esse personagem?
[S.G.]: Esta era a intenção desde o princípio, um fluxo de consciência emocionalmente intenso, que pusesse o leitor dentro da mente perturbada de Murilo e, mesmo assim, o leitor fosse capaz de inferir e desvendar o que realmente se passou entre estes dois irmãos que se amavam e que, a certa altura, se separaram devido às diferentes escolhas que fizeram na vida, algo que também nos atravessa e que diz respeito a todos nós. Somos responsáveis pelas nossas escolhas, pelas decisões que tomamos, pelo que decidimos ignorar ou se importar.

[FA]: Se por um lado Joel fica preso à História, por lutar contra a ditadura, o irmão se mostra mais complacente, priorizando sua liberdade de conduta, fingindo normalidade a tudo que se passa ao redor. Vivemos ainda nesta dicotomia de lados opostos em nosso cenário político.
[S.G.]: Ainda sentimos as consequências e os efeitos da ditadura nos dias atuais. Ainda há este embate raso entre “capitalistas” e “comunistas” quando o problema é bem mais profundo e complexo do que uma simples polarização de ideias ou de uma polarização partidária. O fato é que o sistema capitalista produz inúmeros ‘excluídos’, os marginalizados do sistema, e, para além do extremismo partidário, governantes, autoridades e políticos não sabem o que fazer com eles. Explorá-los? Escravizá-los? Matá-los? Encarcerá-los em novas prisões no meio da Amazônia? O fato é que o grande capital se concentra cada vez mais em menos mãos, que continuam explorando os recursos mundiais do planeta com vigor incessante. O fato é que isto faz explodir a miséria e a violência, além de exaurir o meio-ambiente. Não nos esquecemos de Mariana nem de Brumadinho. Ou o afundamento do solo nos cinco bairros esvaziados às pressas na capital alagoana, o maior desastre em solo urbano do Brasil. Ou o afundamento da cidade de Kiruna, ao norte da Suécia, cujos moradores foram realocados porque corriam o risco de serem engolidos, consequência da exploração das minas de minério de ferro subterrâneas. O fato é que o oportunismo de poucos dita o destino de muitos. Portanto, a pergunta a ser feita é: até quando o grande capital passará por cima do bem-estar das pessoas, dos povoados, das nações? Então, retornando à sua observação, talvez seja, sim, o caso de nos posicionarmos tal qual os personagens Joel e Murilo, antes que não haja nem planeta nem humanidade.

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Fernando Andrade, crítico literário.
Autor, entre outros, do livro Obras são morfemas.
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