O REGIMENTO DOS ESPECTROS – de Lydie Salvayre

   Ficha de leitura

Título:                                      O Regimento dos Espectros[1]

Autor:                                       Lydie Salvayre[2]

Editora:                                    Terramar ©

Coleção/ Edição:                    Tudo Ficção

Tradução:                                Stella Gaspar da Silva

Revisão:                                   Francisco Rodrigues

Ano de publicação:                 1998

Género literário:                      Romance

Número de páginas:               154

Resumo:

Mãe e filha, Rose e Louisiane, partilham o espaço das recordações e dos redemoinhos da memória num local claustrofóbico e desarrumado em todos os sentidos. Uma casa suja e caótica atafulhada de objetos decadentes, avariados ou partidos, como nos casulos dos acumuladores. Na presença de um oficial de justiça, que leva a cabo um minucioso inventário dos bens móveis com vista a executar uma penhora, a narradora participante suga o leitor para este ambiente opressivo e transporta-o para épocas sem fronteiras rígidas, de intenso sofrimento, revolta, insanidade e desconfiança.

Estamos em Paris, no final da década de 90, mas também em 1943, em plena Segunda Guerra Mundial, em Venerque (Haute-Garonne, comuna perto de Toulouse), sob o regime colaboracionista de Vichy, comandado pelo muito tristemente célebre Marechal Pétain, vulgo Putain, e todos os seus tenebrosos e viscosos sequazes. Muitos deles são citados – Dr. Ménestrel, Darnand, Bousquet, a milícia francesa pró-nazi – e à mistura com figuras reais surgem diante do leitor outras tantas, ficcionadas e verosímeis, como os gémeos Juel, que corporizam tudo o que de mais abjeto pode existir num ser humano: a crueldade amoral, o prazer sádico da tortura, a estupidez infamada da mente doentia e armadilhada por complexos vários, a mesquinhez. Os gémeos Juel são seres hediondos e pestilentos que infundem medo e nada mais. E desse medo, no qual fundam a sua ideia de supremacia, apadrinhado pelo poder vigente à época, retiram satisfação orgástica e realização pessoal. Todas essas figuras de um passado remoto, mas vivaz, se transformam em espectros permanentes.

Jean é a figura perfeita do herói comum, que não estava destinado a ser herói, mas se perpetua na memória dos seus como um doce e inesperado mártir que sonhava descer o Mississípi. A figura deste homem precocemente arrancado à vida da forma mais horrenda – que (não) se possa imaginar – irá marcar indelevelmente o destino da família.

No presente da narrativa misturam-se vários rostos da família através dos relatos entrecortados e alucinados da mãe: a avó, mulher independente e corajosa que enfrenta o poder nazi de forma temerária, colhendo as mais inomináveis consequências. A Fifi, uma refugiada espanhola que se afirma pela excelência dos seus cozinhados e pelo humor ácido, pelas pragas e pelas expressões insultuosas pejadas de inconsciente ousadia e cores vibrantes.

Todo o romance é atravessado por uma loucura furiosa e indomável, sem cura à vista e intratável. Ancorada num passado traumático e num presente de miséria, sem esperança e sem saída. O oficial de justiça, impassível, continua a levar a cabo a sua tarefa segundo as regras da arte, sem que a sua atenção se deixe contaminar pelos acessos psicóticos, pelas invetivas da mãe, pelas tentativas de negociação e fina cortesia da filha. Neste ambiente irrespirável o horror da França de Vichy é passado em revista através das vivências familiares. Todo o seu cinismo é ilustrado com pinceladas vigorosas, tal como o desprezo e violência perante cidadãos que se viram espezinhados, humilhados  e amordaçados, no seu próprio país.

No fundo, o romance sublinha energicamente o desvairo da guerra e da arrogância, da morte física e simbólica, através da loucura de quem ficou para sempre enredado e enlameado nas malhas do horror e nas suas ramificações quotidianas. Não procuremos um final explícito e esclarecedor para esta obra, pois cada parágrafo, capítulo ou fala das personagens é, por si só, matéria de reflexão. Apesar do terramoto de tragédias a narrativa é cruzada por um humor corrosivo e redentor, que permite ao leitor sorrir e absorver com mais leveza todos os monstruosos dramas que envolvem a vida destas duas mulheres.

A reter, de forma telegráfica: a maneira como todas as figuras que representam “o mal” se unem numa só, Putain; as poucas estruturas de que dispõem, mesmo as modernas sociedades ocidentais, para amparar os que se encontram em situação de maior vulnerabilidade, nomeadamente doentes mentais com patologias múltiplas incluindo stress pós-traumático, após terem estado mergulhados numa guerra, onde perderam tudo ou nunca tiveram nada; a solidão e o olhar predominantemente legalista e implacável da Justiça, injusta perante a miséria e a pobreza mais obscena.

Recorde-se que Lydie Salvayre é também psiquiatra: não admira por isso que conheça tão bem os meandros da mente humana e os tortuosos caminhos que a condicionam.

 

[1] Título original do romance: La Compagnie des Spectres (Éditions du Seuil, Paris, 1997). Nesse ano, foi considerado pela revista Lire um dos “vinte melhores do ano”.

[2] Biografia do autor: “Lydie Salvayre nascida em 1946, filha de pai andaluz e de mãe catalã, refugiados em França desde fevereiro de 1939, Lydie Salvayre passou a infância em Auterive, perto de Toulouse. Depois de uma licenciatura em Literatura Moderna na Universidade de Toulouse, estudou Medicina na Faculdade de Toulouse e realizou, em seguida, o internato em Psiquiatria. Torna-se pedopsiquiatra e, durante 15 anos, é directora do Centro de Saúde de Bagnolet. Lydie Salvayre é autora de vinte livros traduzidos em inúmero países, alguns com adaptações teatrais. Vencedora de inúmeros prémios literários, com o Prémio Goncourt de 2014 atinge o auge da sua carreira…”.

Fonte: https://www.wook.pt/autor/lydie-salvayre/16898

 

 

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Sobre Luisa Fresta 57 Artigos
Luísa Fresta, portuguesa e angolana, viveu a maior parte da sua juventude em Angola, país com o qual mantém laços familiares e culturais; reside em Portugal desde 1993. Desde 2012 assina crónicas e artigos de opinião em jornais culturais, revistas e blogues de Angola, Portugal e Brasil, essencialmente sobre livros e cinema africano francófono e lusófono. Esporadicamente publicou em sites ou portais culturais de outros países como Moçambique, Cabo Verde e Senegal. Em 2021 e 2022 traduziu O HOMEM ENCURRALADO e ESPLANADA DO TEMPO, ambos do poeta brasileiro Germano Xavier (edição bilingue português-francês/Penalux). Em 2022 ilustrou o poemário infantojuvenil DOUTRINA DOS PITÓS, do poeta angolano Lopito Feijóo (Editorial Novembro). Desde 2020 mantém um grupo virtual intitulado ESCOLA FECHADA/ MENTE ABERTA, criado no início da pandemia, destinado a divulgar literatura infantojuvenil e artes plásticas, nomeadamente ilustração, com especial incidência no universo lusófono e francófono. O principal objetivo é consolidar os hábitos de leitura das crianças, estimular a leitura em família e o gosto pelo desenho; e aproximar escritores e ilustradores de leitores e da comunidade escolar. Tem textos dispersos por antologias, alguns dos quais integraram projetos pro bono, e outros premiados em Portugal e no Brasil, desde 1998; assim como um livro de poesia vencedor do prémio literário Um Bouquet de Rosas Para Ti, em Angola, atribuído pelo Memorial António Agostinho Neto (2018). Curiosidade: o poema Casa Materna, que dá título ao livro (originalmente designado por Casa ambulante), foi distinguido com o 2º prémio de poesia internacional Conexão Literária (Câmara Municipal de Divinópolis/Brasil) quando a obra já se encontrava em processo de edição. OBRAS DA AUTORA: Contexturas (contos, baseados em quadros de Armanda Alves, coautora), Livros de Ontem, 2017; Março entre meridianos (poesia, 1º prémio “Um Bouquet de Rosas para Ti”), MAAN, 2018; Março entre meridianos (reedição), Livros de Ontem, 2019; A Fabulosa Galinha de Angola (infantojuvenil), Editorial Novembro, 2020; Sapataria e outros caminhos de pé posto (contos), Editorial Novembro, 2021; Burro, Sim Senhor! (infantojuvenil), Editorial Novembro, 2021; Casa Materna (poesia), Editorial Novembro, 2023; A Idade da Memória (infantojuvenil, contos inspirados na poesia de Agostinho Neto. Coautora: Domingas Monte; ilustrações: Júlio Pinto), Mayamba Editora, 2023; No País das Tropelias e Desventuras (Coleção Capitão/ infantojuvenil), Editorial Novembro, 2024.

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