Os nossos aliados
(Respondendo o texto de Joka Faria)

Sim, queremos aliados para nossas viagens. No entanto, essas viagens parecem tão distantes, ficaram lá nos anos 60, quando os hippies ainda tinham os sonhos e os devaneios de buscar com profundidade a Paz e o Amor. Naqueles momentos, o amor e o sexo circulavam Dionísico em seus dois aspectos: o aspecto do amor livre, do sexo livre e sem culpa, embebido com o vinho que embriaga, como também o sexo como via para a iluminação e elevação espiritual. A dualidade desses tempos idos, fazia com que se buscasse os sonhos, além da vida real e do cotidiano. É nesse cenário New Age que apareceu gente bonita como Castañeda, SAW, velhos e sábios índios da América Latina e os gurus indianos das mais variadas vertentes. Independente das consequências desses tempos, essa foi uma época de efervescência e grande iluminação, mesmo com todos os delírios.

Bhagwan Shree Rajneesh
Partindo do princípio esotérico da elevação espiritual, faz sentido a busca e a espera de uma evolução da humanidade. Podemos dizer que aqueles foram tempos de sonhos maravilhosos, tanto psicodélicos como os lúcidos almejados pelos gurus e mestres que desfilavam entre os artistas, músicos e poetas da época.
Mas as luzes se apagaram há muito tempo e a realidade se faz presente deixando todos órfãos dos belos sonhos. A tecnologia trouxe uma vibe extremamente individualista, narcisista, uma alienação desvinculando qualquer sonho psicodélico ou lúcido. Agora a modinha é um mundo virtualizado, com excessivas informações, que nosso cérebro não dá conta…afinal os 10% usados era só para os Einstein, que em meio a meditação, veio tão fácil a Lei da Relatividade.
Foi na virada do milênio que houve essa mudança na humanidade. Dizia-se que os maias previam isso e aquilo, que Nostradamus profetizou isso e aquilo, que o apocalipse da Bíblia dizia tantas coisas e outras profecias do não sei o quê. E foi uma grande frustração, porque nada aconteceu, apenas uma realidade difícil de se acostumar. Esperou-se um 2000 que não passaria e passou, que o mundo seria destroçado pelo Hercólubus/Nibiru/Absinto e não rolou. Que as bombas sofisticadas destruiriam a humanidade, mas ela continua em pé, deitada e rastejando.

Sou uma sonhadora, mas também me atenho àquilo que rola ao meu redor e tento fazer uma leitura do que está acontecendo no momento. A internet estreitou o mundo, facilitou as comunicações, proporcionou uma forma mais econômica de produzir e também de aproveitar o tempo. Mas como tudo é dual, as pessoas vivem nesse mundo virtual esquecendo do próprio corpo e não experimentam com tanta eficiência as sensações, imaginam que sentem, criam efígies e desgastam energias inutilmente. Começam a fazer tudo virtualmente (compras, passeios, sexo, amizade, guerra, etc) esquecendo que se tem um corpo que é vivo, tem sangue, tem sensações de prazer e dor, sensível ao toque e que a vida e a morte o rodeia. O mundo virtual consegue embaçar tudo isso, dando uma ideia falsa das coisas, que a concretude não existe, que o palpável está longe das nossas mãos, no teclado.
O vírus que nos atacou foi algo real, não é o vírus que ataca nosso pc, not ou smartphone. É algo vivo e ataca um corpo real e o mata, fere e deixa sequelas, talvez irreparáveis. Muitos morreram na pandemia e mesmo assim, perdeu-se o medo de morrer, passa batido o instinto de sobrevivência, porque viver nesse adormecimento virtual impede o acesso aos centros da máquina humana: motor, instintivo, sexual, mental e emocional, dentro de suas respectivas velocidades…apenas usando o mais lento dos centros que é o intelectual. Então, diante de um perigo real e imediato, os instintos de sobrevivência (tão velozes), perdem a velocidade num mundo virtual e não se compreende a eficiência de um vírus mortal, numa epidemia ou qualquer outro perigo iminente. As pessoas ligaram o botão do F….. e andam pelas ruas como se não estivessem em perigo.

O Triunfo de Baco – Velazquez
Nesse momento penso que os tempos das ondas Dionísicas que rolou nos anos 60, devem ter sido a coisa mais deliciosa e estonteante, a plenitude no uso do corpo e os outros centros da máquina humana, mesmo que não fosse para se elevar. Perdemos a onda Dionísica para uma onda virtual onde ninguém sente, apenas pensa que sente, esquecendo a sensação de dor e prazer. Sem Eros e Thanatos nada somos, apenas criaturas sem alma e sem a possibilidade de construir uma, através de toda alquimia de Dionísio.
Então Dom Juan, o velho índio, foi esquecido entre os textos de Carlos Castañeda, ficou no passado e muitos nem sequer conhecem seus ensinamentos – de como conseguir o conhecimento, os meandros desse poder, o construir e o descontruir de cada passo dado e a beleza de seguir os caminhos do coração. E os aliados podem ser nossos companheiros e auxiliares dessa bela viagem. Os gatos, esses são belos e gigantescos aliados.

E quanto a esses amigos (não aliados) que ficavam vendo uma coruja em noites de insônia, só tenho uma coisa a dizer, puro delírio!
Elizabeth de Souza
140321

Coloco abaixo, alguns trechos do livro de Castañeda, com as falas de Dom Juan:
– Os objetos de poder são tão poderosos quanto um aliado? – perguntei.
Dom Juan riu com desprezo antes de responder. Parecia que ele estava-se esforçando muito para ser paciente comigo.
– Maíz-pinto, cristais e penas são simples brinquedos, comparados com um aliado – disse ele. – Esses objetos de por só são necessários quando o homem não tem um aliado. É uma perda de tempo procurá-los, especialmente no seu caso. Você devia estar procurando arranjar um aliado; quando o conseguir, há de compreender o que lhe digo agora. Os objetos de poder são como uma brincadeira de criança.
– Não me interprete mal, Dom Juan – protestei eu. – Quero ter um aliado, mas também desejo saber tudo o que puder. Você mesmo já disse que saber é poder.
– Não! – disse ele, com ênfase. – O poder reside no tipo do poder que a gente tem. De que adianta saber coisas inúteis?
Um “aliado”, disse ele, é um poder que um homem pode introduzir em sua vida para ajudá-lo, aconselhá-lo e dar-lhe a força necessária para executar atos, grandes ou pequenos, certos ou errados. Este aliado é necessário para realçar a vida de um homem, orientar suas ações e aumentar seus conhecimentos. De fato, um aliado é o auxiliar indispensável do conhecimento. Dom Juan falou isso com muita convicção e força. Pareceu escolher as palavras com cuidado. Repetiu a seguinte frase quatro vezes:
– Um aliado o fará ver e compreender coisas a respeito das quais nenhum ser humano poderia esclarecê-lo.
– Um aliado é assim como um anjo da guarda?
– Não é guarda nem anjo. E um auxiliar.
E aqui, um trecho de Castañeda num blog: https://www.blogs.unicamp.br/chivononpo/2006/06/03/um-texto-de-carlos-castaneda/
Joka
Lembrei dos encontros na casa do Poike, quando ingenuamente, fazíamos debates acalorados sobre os destinos do homem e do planeta, lá nos idos de 2006. Olha que as teorias do Poike quanto a internet e suas influências em nossas vidas foram assertivas e podemos constatar hoje, que ele estava coberto de razão, em parte.
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