Todo dia uma lágrima de palavra cai na folha. O escritor acaba de perder sua companheira. A escrita agora é uma saliva que demora a exprimir os sentidos do luto. Autores amados fazem um pouco de companhia a este autor enlutado, que no domingo pesa um pouco mais por ser uma dia religioso, habituado à dor. Penso neste autor, Gustavo Odilon, neste este belo romance (“O melhor dia para morrer”, Litteralux, 2026) que li recentemente e para o qual agora escrevo, sem lágrimas, este pequeno comentário. Um romance delicado, cujo personagem — um idoso que perdeu a mulher num dia banal de comprar no supermercado — nos conduz para uma história permeada pelo luto e pelo afeto. Gustavo não nos redime da proteção, ou do acalanto de miudezas, ao tratar do cotidiano marcado pelo prisma da morte: pedaços de intimidade, o olhar para dentro de si, talvez a fuga de alguma piedade cristã. Como se lidasse com uma tapeçaria, o autor faz do jogo entre findar e continuar uma poética do descosido, onde o viver se reverte em certo otimismo dentro do voltar a si.
Confira abaixo a entrevista que tivemos com o autor.
Fernando Andrade
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Fernando Andrade: A escrita não seria um luto de nossas células mortas? Devanear deve ser um ato de manejar as teias de nossos medos. Ou do nosso sótão, inconsciente sempre aberto. Refiro-me à sua escrita, claro.
Gustavo Odilon: Acredito que o luto seja um estado em que, às vezes, compartilhá-lo é difícil. Falar é um exercício doloroso que concretiza a tal dor em algo quase palpável, mesmo que o som não seja concreto. Escrever, por outro lado, cabe em outro lugar: as palavras refletem as voltas que a dor nos causa. Minha história é 100% fictícia, com influências das fontes literárias de que bebo, mas totalmente independente de uma experiência pessoal específica. Isso não significa, porém, que a escrita esteja dissociada de quem escreve. Talvez a ficção seja justamente esse lugar em que podemos explorar sentimentos, medos e inquietações sem necessariamente precisar vivê-los ou reconhecê-los como nossos. Não sei se escrevo para elaborar alguma coisa ou se, no próprio ato de escrever, acabo descobrindo coisas que antes não sabia nomear. Talvez devanear seja também isso: permitir que a imaginação percorra lugares que a consciência, sozinha, não alcançaria.

[F. A.]: A trama me traz uma poética tão forte da perda, do extravio, da ausência do corpo, do afeto. E tudo cortejado por lindas referências literárias. Como pensou sua trama de luto?
[G. O.]: Pensei, antes de escrever a história, na máxima de que existe um bom dia para morrer, o que me levou à conclusão de que não há. A morte é algo tão marcante e devastador, na maioria das vezes, que temos dificuldade em racionalizá-la. Ela chega repentinamente, sem pedir licença, sem preparar o terreno, deixando-nos afundar em um lugar que conhecemos, mas para o qual nunca estamos prontos: a finitude. A partir de algo tão corriqueiro, mas ao mesmo tempo tão obscuro, pensei em uma história que deixasse rastros para trás, em que o vínculo fraterno continuasse vivo e presente, afinal, é brusco o movimento de perder um amor. A ausência do corpo não significa necessariamente a ausência de tudo aquilo que permanece ligado a ele. A linguagem, confesso, deve muito às minhas leituras. Como estudante de Letras e, antes de tudo, leitor fascinado pela literatura, acabo absorvendo aquilo que leio e desejando produzir a partir do que me chama a atenção. Não são apenas as aulas e os livros que participam desse processo: o cinema também tem sua parcela de influência, sobretudo no aspecto experimental da minha escrita.

[F. A.]: A aceitação não seria um processo do personagem do seu livro de anamnese para a morte. Há um trabalho dele em apaziguar a dor. Fale sobre isso.
[G. O.] Acho que o estado de estupefação do personagem nunca acaba; ele diminui de intensidade, e é o que imagino que muitas pessoas que passam pela experiência de perder alguém sintam. O choque permanece, ainda que adormecido, e talvez nunca deixe de existir por completo. Há algo de assombroso em se lembrar de que alguém que amamos foi embora, mesmo que a morte seja um fato da existência. Meu personagem coloca outras coisas diante desse choque: as lembranças, os livros, a rotina, a obstinação que o move até o fim na igreja. Mas não, ele não aceita a morte; apenas a ofusca com pinceladas efêmeras da realidade do agora. Se parasse para refletir sobre a ausência em toda a sua dimensão, talvez voltasse a afundar nela. Há, portanto, um movimento de sobrevivência, uma tentativa de continuar vivendo apesar daquilo que não pode ser reparado. Não sei se existe propriamente um apaziguamento da dor, mas talvez haja momentos em que ela perde o protagonismo, em que a vida consegue se impor por alguns instantes. Não se trata de superar a perda, tampouco de encontrar uma resposta para a morte, mas de continuar existindo ao redor dela. A aceitação, se é que ela acontece, talvez não esteja em compreender ou consentir com a partida, mas em conseguir atravessar os dias sem que a ausência ocupe todos os espaços.

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Fernando Andrade, crítico literário.
Autor, entre outros, do livro Obras são morfemas.
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