UM CIRCO QUE PASSA – de Patrick Modiano

Data de leitura:                       04-05-2026 a 06-05-2026

Ficha de leitura

 

Título:                                      Um circo que passa[1]

Autor:                                       Patrick Modiano[2]

Editora:                                    DOM QUIXOTE ©

Tradução:                                Ana Catarina Costa  

Ano de publicação:                 2014

Género literário:                      Romance

Número de páginas:               142

 

Resumo: Paris, anos 60. Patrick Modiano escreve e descreve um certo quotidiano aburguesado com frases curtas, cinematográficas, que escondem tanto quanto dizem, sobretudo nos diálogos breves. Jean e Gisèle calcorreiam as ruas e praças de Paris, vários bairros (os famosos “arrondissements”) durante a narrativa, desde o instante zero até ao momento em que o leitor se separa do livro.

Creio que só li o nome de Jean uma única vez. Ele estava (estaria) muito ocupado a viver a história e a contá-la, no tempo de então e anos mais tarde. Conta o que aconteceu, o que ficou por fazer e por viver. Talvez o leitor fique, como eu, agarrado a esta narrativa breve durante três dias de leitura. Ficou-me a impressão de uma certa dose de autoficção ao comparar a atmosfera do protagonista, enquanto adolescente, com a do autor.

Jean é um jovem de dezoito anos que amadurece abruptamente diante da expetativa do amor, da aventura e da fuga em direção a um destino que lhe surge como uma possibilidade de futuro. Os seus dias em Paris, pouquíssimos, vivê-los-á em companhia do leitor e da misteriosa Gisèle, uma mulher encantadora, intrigante e cheia de enigmas. Sempre em movimento, entre uma casa e outra, entre uma rua e outra, encontrando-se com conhecidos-desconhecidos com quem mantém relações superficiais, ambíguas e recentes. Parece que neste romance nunca chegamos a conhecer verdadeiramente ninguém, muito menos as pessoas do passado. Os locais são importantes, tanto como os indivíduos: os cafés, os restaurantes, os hotéis, as pontes, o Sena, as casas de espetáculo e uma cidade: Roma. A Suíça e a Espanha também. Algumas moradas escusas e ruas escuras. Giselle pode aparecer e desaparecer subitamente em qualquer uma delas.

As pessoas passam e mostram-se muito pouco. Algumas possuem caraterísticas extravagantes, têm rotinas bizarras e são demasiado blasées.  Jean é um jovem cujos pais não estão presentes. Perguntamo-nos porquê, embora saibamos vagamente por onde andam. Todo o romance nos coloca diante de uma questão estranhíssima, inexplicada, que é uma espécie de abandono parental numa família de classe média, onde, aparentemente, pai e mãe tinham preocupações mais prementes do que ocupar-se do único filho.

Jean amadurece em coragem, ousadia, temeridade, espírito de aventura. Progressivamente vai tomando decisões que o libertam e encurralam, que também o põem em perigo. Paris é a cidade onde descobre o amor e Roma desponta já no horizonte. O quotidiano movimentado do rapaz e da rapariga é marcado pela forma estranha como surgem na vida um do outro. Na verdade, eles não se conhecem, não mais do que o leitor. Haverá amor sem conhecimento mútuo? O mistério e os segredos entre ambos adensam-se. Qual será o nome da jovem e a parte de verdade em tudo o que conta, insinua e cala? E até que ponto esses pormenores são importantes num contexto de intimidade? Jean parece estar sempre na iminência de ser abandonado, manipulado, e raras vezes tem o controlo da situação. Grabley, Sylvette, Pierre Ansart, Jacques de Bavière, Martine Gaul, a memória de um circo de inverno, o carinhoso cão, Raymond, ajudam a colorir esta narrativa que nos foge das mãos. Talvez o leitor se deixe absorver, como eu, até à última palavra.

 

Muitas avenidas, praças e outros locais são referidos. Pertencem a Paris da época. Eis aqui uma lista não exaustiva que permite mapear a narrativa e explica por que motivo o leitor se pode sentir fisicamente cansado ao percorrer tantos quilómetros com os personagens. Os nomes são referidos tal como aparecem nesta edição traduzida.

Avenida da Grand-Armée

Avenida de Suffren

Avenida dos Champs-Elysées

Bairro de Suchet

bateau-mouche

Bois de Boulogne

Boulevard du Palais

Boulevard Haussmann

Boulevard Murat

Café da Tournelle

Café do Tournon

Cais Conti

Cais da Tournelle

Cais dos Célestins

Carrefour des Cascades

Carrefour do Odéon

Champs-de-Mars

Deux Magots

Edifício da Monnaie

Estátua de Henrique IV

Étoile

Gare du Nord

Grenelle

Igreja Saint-Gervais

Ilha da Cité

Jardim do Luxemburgo

Jardim Vert-Galant

Jardins do Trocadéro

Louvre

Montmorency (arredores)

Neuilly

Petite-Roquette

Pigalle

Ponte d’Iéna

Ponte das Artes

Ponte Saint-Michel

Pont-Neuf

Porta Dauphine

Porte de la Muette

Porte de Passy

Praça da Bastilha

Praça do Châtelet

Rua de Belles-Feuilles

Rua de Notre-Dame-de-Lorette

Rua do Laos

Rua Fontaine

Rua Longchamp

Rua Washington

Rue de l’Arcade

Rue Desaix

Rue Raffet

Saint-Leu-la-Forêt, nos arredores de Paris

Sena

Sexto, sétimo e décimo-quinto bairro (sixième, septième e quinzième arrondissement)

Torre de Saint-Jacques

 

[1] Título original do romance: Un cirque passe (Éditions Gallimard, 1992).

[2] Biografia do autor: “Patrick Modiano nasceu em Boulogne-Billancourt, nos arredores de Paris, em julho de 1945, e publicou o seu primeiro romance, La Place de l’Étoile, em 1968. Com Na Rua das Lojas Escuras, obteve em 1978 o Prémio Goncourt. Em 1972, recebeu o Grande Prémio de Romance da Academia Francesa com As Avenidas Periféricas.

Considerado um dos mais importantes escritores franceses, e autor de uma vasta obra, foi distinguido com o Grande Prémio Nacional das Letras e com o Prémio Nobel da Literatura de 2014.”

Fonte: https://www.wook.pt/autor/patrick-modiano/19561

 

 

 

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Sobre Luisa Fresta 56 Artigos
Luísa Fresta, portuguesa e angolana, viveu a maior parte da sua juventude em Angola, país com o qual mantém laços familiares e culturais; reside em Portugal desde 1993. Desde 2012 assina crónicas e artigos de opinião em jornais culturais, revistas e blogues de Angola, Portugal e Brasil, essencialmente sobre livros e cinema africano francófono e lusófono. Esporadicamente publicou em sites ou portais culturais de outros países como Moçambique, Cabo Verde e Senegal. Em 2021 e 2022 traduziu O HOMEM ENCURRALADO e ESPLANADA DO TEMPO, ambos do poeta brasileiro Germano Xavier (edição bilingue português-francês/Penalux). Em 2022 ilustrou o poemário infantojuvenil DOUTRINA DOS PITÓS, do poeta angolano Lopito Feijóo (Editorial Novembro). Desde 2020 mantém um grupo virtual intitulado ESCOLA FECHADA/ MENTE ABERTA, criado no início da pandemia, destinado a divulgar literatura infantojuvenil e artes plásticas, nomeadamente ilustração, com especial incidência no universo lusófono e francófono. O principal objetivo é consolidar os hábitos de leitura das crianças, estimular a leitura em família e o gosto pelo desenho; e aproximar escritores e ilustradores de leitores e da comunidade escolar. Tem textos dispersos por antologias, alguns dos quais integraram projetos pro bono, e outros premiados em Portugal e no Brasil, desde 1998; assim como um livro de poesia vencedor do prémio literário Um Bouquet de Rosas Para Ti, em Angola, atribuído pelo Memorial António Agostinho Neto (2018). Curiosidade: o poema Casa Materna, que dá título ao livro (originalmente designado por Casa ambulante), foi distinguido com o 2º prémio de poesia internacional Conexão Literária (Câmara Municipal de Divinópolis/Brasil) quando a obra já se encontrava em processo de edição. OBRAS DA AUTORA: Contexturas (contos, baseados em quadros de Armanda Alves, coautora), Livros de Ontem, 2017; Março entre meridianos (poesia, 1º prémio “Um Bouquet de Rosas para Ti”), MAAN, 2018; Março entre meridianos (reedição), Livros de Ontem, 2019; A Fabulosa Galinha de Angola (infantojuvenil), Editorial Novembro, 2020; Sapataria e outros caminhos de pé posto (contos), Editorial Novembro, 2021; Burro, Sim Senhor! (infantojuvenil), Editorial Novembro, 2021; Casa Materna (poesia), Editorial Novembro, 2023; A Idade da Memória (infantojuvenil, contos inspirados na poesia de Agostinho Neto. Coautora: Domingas Monte; ilustrações: Júlio Pinto), Mayamba Editora, 2023; No País das Tropelias e Desventuras (Coleção Capitão/ infantojuvenil), Editorial Novembro, 2024.

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