A adolescência nos anos 80 – Parte 2
Em mais uns daqueles finais de semana ensolarados dos anos 80, onde a galera se reunia nas primeiras horas da manhã. Geralmente acontecia em frente a um portão de uma residência, onde sem pré eleição, eram feitos esses encontros de forma quase gravitacional, bastava o primeiro que ali chegasse para ser seguido um a um dos que viriam depois.
Havia uma casa, ou melhor, a calçada de uma residência, que permeia minhas lembranças de forma mais vívida, pois além de ser uma das quais nos reuníamos com mais frequência, não pertencia a nenhum dos camaradinhas, mas sim a um rapaz que lá morava, que frequentava a rua juntamente com nossos irmãos mais velhos. Quase todos nós, que não éramos poucos, tínhamos irmãos mais velhos, que muito raramente se misturavam com a tchurma adolescente. Mas quando isso acontecia, na melhor das hipóteses, poderia haver algum comprometimento de respeito, até o findar da brincadeira em que as duas gerações pareciam esquecer a data de seus aniversários, sendo envoltas pela magia de uma irmandade que nos separava tempo espaço por algumas horas. O que tornava a brincadeira mais dinâmica fisicamente e numerosa em participantes.
Mas quase sempre os grandões, como os chamávamos sarcasticamente, ao findar de qualquer brincadeira, eles entendiam que o divertimento só se completaria sacaneando algum de nós, com algum esculacho moral e culminando com o esculacho físico. Portanto era muito comum ver o próprio irmão mais velho contribuindo para a zoação do seu próprio familiar.
Dentro de uma análise enxuta e também incompleta, para mim, tais momentos pós diversão única, havia nessa saturação de esculachos e de impor ao mais novos momentos muitos desconfortáveis, digamos assim, algo de sobrevivência, resistência futura talvez. Hoje, analisando de forma pueril e quase como se dissesse que depois da alegria vira a tristeza.

Mas voltando a memória para uns dos pontos preferidos da turma mais nova – Essa calçada em específico se diferenciava das outras, pois era a única que permanecia em natura, ou seja, era de terra. A residência havia um declive da calçada para o quintal, que tinha um enorme abacateiro, que fazia sombra quase o dia inteiro. E naturalmente o que minha memória retêm dessa época e principalmente dessa calçada específica, o famoso jogo de cela com piões, onde se fazia um círculo na areia, casavam-se os peões dentro do círculo e depois do par ou ímpar lançava-o à cela com o intuito de tirar o pião apostado de dentro do círculo, chamado também de cela. Na maioria das vezes isso acontecia de primeira, mas também quase sempre o pião lançado, ficava a zuncar dentro do círculo. O que tornava esse momento de uma ansiedade prazerosa, pois ao perder a força, a tendência do pião era rolar, nessa, a torcida de quem participa da peleja é torcer no caso do arremessador, para que o pião role para fora do círculo.
Isso acontecendo, os piões celados passam a ser de sua propriedade e continua com a próxima tacada, caso ainda tenha peões na cela. Se não é feita outra aposta e continuasse o jogo.
Para os politicamente corretos é possível se fazer essa brincadeira sem a aposta, apenas brincando; ou mesmo pintar os piões com tintas multicoloridas e contemplar como elas se misturam ao girar rapidamente. Há ainda os garotos que fazem verdadeiras acrobacias, demostrando uma habilidade admirável. Uma dessas peripécias, o garoto lança o pião que se desfaz da fieira, que enrolada apertadamente sobre seu entorno e antes que o pião toque ao chão, ele dá um pequeno tranco no cordão e o apara com a palma estendida e põe próximo aos ouvidos dos interessados, para que escutem o zuncar que geralmente muda.

Nessa mesma calçada se aproveitava jogos com bolinhas de gude ou fubecas. Havia também o jogo da paqueta, que nada mais era do que cinco buraquinhos feitos na terra, com uma distância razoável entre um e outro de forma que o arremessador, tenha que ter uma certa precisão para que a bolinha de gude ou também chamada fubeca, embirosque, ou seja, caia dentro do buraquinho fazendo com que o jogador continue a avançar sobre os demais buracos.
Tal brincadeira não tem limites de participantes, se bem me lembro a circunferência dos buracos era como a letra L, com três buraquinhos seguidos, para dois laterais e havia mais um buraquinho que dá nome ao jogo, buraquinho esse que é mais afastado e maior em circunferência, chamado de Paqueta. O que acontece desde início do jogo se é traçado uma linha em distância ao primeiro buraco, os participantes arremessam um a um a suas respectivas fubecas. O que chegar mais próximo ao primeiro buraco, dá início a peleja – se porventura houver dúvidas de proximidade iguais, se é medido com a palma e os dedos das mãos.
O iniciante terá que percorrer com sua fubeca acertando todos os buracos, ou biroscas, por determinadas vezes, óbvio que é quase impossível, que o participante percorra todas as biroscas sem errar, o que dará chance de jogo para o segundo colocado e assim sucessivamente.
Há também a possibilidade do que se chamava stekar. Uma vez que a fubeca dos concorrentes do jogo esteja próxima a fubeca do jogador da vez, pode se medir pelo palmo da mão, ela estando nesse linear de aproximação, há a possibilidade de stekar, ou seja, usando o polegar e o indicador você arremessa a bolinha do oponente para o mais longe possível, dificultando então a possibilidade que ele seja o vencedor da partida.
Esse stekar muitas vezes, pode ser feito mirando a Paqueta, uma vez que a fubeca seja arremessada e caia no buraquinho chamado Paqueta. O participante que sofreu o golpe, terá que ficar uma rodada sem jogar, rodada essa que é medida pelo jogador que estiver na frente do jogo.
Obviamente que as brincadeiras citadas entre outras da nossa adolescência, não ofereciam nenhum interesse factual pelos nossos primogênitos, se quer a curiosidade os tinha, mas ao perceber nossos momentos de intensa diversão algo os movia quando percebiam esses momentos de pura e intensa concentração nossa. Como não podíamos esperar por boas intenções, ao perceber suas aproximações, a brincadeira era desfeita em segundos – como um camelo ilegal que se desfaz ao perceber a fiscalização. Estávamos sempre atentos a essas inesperadas aparições. Tínhamos motivos de sobra, para termos um verdadeiro pavor de suas presenças.
Por exemplo, no alto da nossa rua existia um terreno vazio, nos anos 80. No fundo do terreno havia o casebre de um senhor no qual todos nós o conhecíamos, pois o seu ganha pão era a venda de doces em um carrinho que ele estacionava próximo a entrada da escola. O terreno que era de sua propriedade, estava por demais mal cuidado, foi quando a mãe de um de nossos amigos teve uma sagaz ideia de sabiamente unir o útil ao agradável, quando sugeriu ao seu filho, que pertencia a nossa tchurma, para que fôssemos ter com o senhor Jorge que vendia doces na escola e era proprietário do terreno, se não podíamos limpá-lo sem nenhum interesse financeiro, apenas com o devidos fins aproveita-lo para algumas brincadeiras seguras. Obviamente que o terreno e o casebre ao fundo, faziam vizinhança à casa desse colega, que havia nos dito da ideia de sua matriarca.
Resumindo a história, levamos a ideia à frente que durou alguns meses, pós a autorização do seu proprietário. Alguns das dezenas de garotos, que participaram dessa empreitada histórica, provavelmente era leitor assíduo dos quadrinhos mais nacionais que já se ouviu falar, do nosso querido Maurício de Souza, se não me falhe a memória. Entre seus personagens femininos e masculinos teriam uma sede infantojuvenil, que os separavam que nada mais era do que um barraquinho de madeira erguido por eles mesmos.
Transpondo a ideia para realidade, após estarmos em fase final da limpeza do terreno, ideia essa que se intensifica, quando um dos garotos nos relatou, depois de comentar com seu avô que era proprietário de um pequeno comércio residencial de carpintaria, no qual o senhor nos auxiliaria não só com madeiras, mas também nos passando dicas de como erguer o pequeno barraco, que seria o nosso clubinho. E aos trancos e barrancos fomos executando nossa empreitada.

Com um tenro saudosismo, lembro-me quando empunho um martelo atualmente, que foi nessa época infantil que tive as primeiras lições de como usar o martelo de forma correta. Para a precisão estar em sua plenitude é necessário que se segure na ponta do cabo e também é a maneira correta de usar o serrote, etc. Óbvio que esses detalhes se aprende no fazer, no executar ou hoje em dia via Net. Mas se lembrar disso, acompanhado de um momento muito especial de infância, tem uma conotação bem legal. Enfim o terreno vazio, agora limpo e plano havia um barraquinho que passou a ser o ponto de encontro.
No mesmo terreno, era possível empinar pipas, abrigar-se da chuva e fazer até fogueirinhas noturnas de inverno, comer batatas envoltas de alumínio, levemente enterradas na brasa das fogueiras. Mas a alegria durou pouco, os “grandões” ao perceberam nosso distanciamento e nossa felicidade, foram sorrateiramente quando menos imaginávamos e destruíram por completo nosso clubinho, madeira por madeira. A nossa revolta foi tamanha, mas não tínhamos a quem recorrer por isso lembro-me que o sentimento de pesar permeava a todos da adolescência, como se tivéssemos sido despejados.
E a nossa ida a lagoa, já bem afastado da segurança da nossa rua, onde o senhor do casebre continuava sendo uma figura enigmática e misteriosa pela minha percepção, que só o vi quase como um vulto ao sair do seu quintal e adentrar rapidamente para o interior do seu casebre, continuava sendo uns dos nossos passeios preferidos, aumentando em muito a frequentes idas a lagoa ou apenas colher frutas e hortifruti e para caçar preás. Para nossas mães, que não se sabe bem ao certo como conseguiram saber desse intrínseco lugar, mas o fato é que para todos ficou, que alguém deu com a língua nos dentes. Elas sabiam de detalhes de quem conhece bem o lugar, é óbvio que a má reputação diante das informações passou a ter para elas uma tônica fortemente negativa. Por isso quando queríamos ir à lagoa do Calipal usávamos um código que funcionava bem ao chamar nossos amigos em suas residências, sem que elas ligassem alhos a bugalhos, dizíamos: – Fulano, Beltrano, vamos para Interlagos, tá afim?
E lá chegando, mesmo considerando o Calipal um lugar comum, acessível e fonte de inúmeras diversões, o mesmo friozinho inicial das primeiras idas, sentia-se ao chegar no local. Era fato que o lugar era também conhecido por pessoas que estavam às margem das leis, como consumidores de Cannabis e até pederastas que por lá apareciam para convites inescrupulosos. Isso quando não encontrávamos galerinhas rivais de bairros circunvizinhos. Na maioria das vezes eram adolescentes de um bairro das adjacências, que lá se dirigiam com o mesmo intuito que o nosso de se divertir, nadar, pescar, caçar, colher frutas, enfim passar algumas horas de pura diversão. E qdo encontrávamos o lugar deserto, era o auge das sensações, era como se o lugar fosse nosso.
E certa vez quando lá estávamos sob essa condição, em meio a risos, alguém pediu atenção, escutamos vozes de zombarias vindos da trilha. Por alguns segundos achávamos e torcíamos para ter sido uma falsa impressão, alguns segundos de silêncio e pronto a observação se confirmava, havia algum grupo se aproximando, pela bagunça e palavras soltas. Não era um grupo pequeno e parecia não terem nenhum cuidado em ocultar suas presenças, mesmo ao passarem em frente ao casebre do “arquiteto” do lugar. E pouco a pouco foi se percebendo algo raro de vermos, o grupo que se aproximava se tratava dos grandões, ou seja, nossos irmãos mais velhos, com um agravante na percepção em vê-los se aproximarem com os ditos também grandões de outras ruas. Naturalmente tínhamos amigos de outras ruas e consequentemente sabíamos quem eram seus irmãos.
E mesmo sabendo que tanto os nossos irmãos sabiam da existência do Calipal quanto caras mais velhos de outras ruas também sabiam, era raro vê-los ali, ainda mais chegando no mesmo momento. Alguns desses caras de outra rua, tinham estilingues passado no pescoço. O que nos fazia imaginar que eles não haviam vindo apenas para nadar.

Depois de alguns minutos ali, desfrutando da água furtada, suas presenças impunham a nós, uma inibição de segundo plano, onde as prioridades estavam sob seus totais domínios, que só foram quebrados quando se notou o revoar de alguns paturis saindo de trás de alguns copados e sobrevoando a lagoa. Essas aves eram assim chamadas, pois além de emitirem um som condizente com o nome que os batiza, eles em seus momentos terrenos, lembravam muito em sua morfologia, patos. Foi quando ao vê-las arremetendo por detrás dos arbustos, alguns jovens do nosso grupo e adultos do grupos dos mais velhos, como em um filme de western, sacaram rapidamente seus estilingues. Alguns dos bornais que geralmente ficavam cruzando o peitilho da garotada, alem de servir para encher de frutas ou legumes, também servia para manter o estilingue municiado de pedras, o que talvez tenha sido para nós evidenciado com uma certa clareza, o primeiro e fatal disparo feito por um dos nossos. Fato que em seguida seria confirmado com um grito de comemoração feita por nosso amigo conhecido como Bicudo, um dos mais experientes do grupo. Mas havia já no grupo dos grandões, alguém que se pronunciava como o responsável pelo feito. E ambos se arremessando quase que simultaneamente sobre as águas da lagoa, disputavam agora nas braçadas, dizendo que a caça abatida pertenceria a quem lhe colocasse as mãos primeiro. O grandão da turma dos mais velhos era um homenzarrão chamado Damião que certamente nadava muito bem, mas era cheio de músculos. Enquanto Bicudo nosso parceirinho era alto e esguio, o que lhe dava vantagens visíveis e ânimos a nossa sonora torcida. O que se concretizou, atravessando em braçadas rápidas Bicudo tocava o Paturi que jazia sem vida. Mas tanto sua alegria quanto a nossa duraria pouco, pois para nós, Bicudo nos representou em duas categorias esportivas: Tiro ao alvo e Natação. Mas Damião ao sentir-se inferiorizado pelas perdas, colocou a sua vantagem física extra água, exigindo o troféu da disputa. Bicudo que não era covarde até que relutou em entregar a caça, mas sucumbido quando percebeu que os grandões também fraudando, afirmavam que Damião havia sido o executor do disparo. Bicudo entre a caça ou troféu como queiram, com uma lágrima no olhar, pois sabia que estava sendo roubado. Esse mesmo sentimento estaria entre todos da nossa turminha.
Damião não contente em ter infringido todas as regras esportivas e leais, sacou um canivetinho e enquanto pelava o paturi, invertia todo o bom senso acusando Bicudo de mentir tanto na honestidade do tiro, quanto no momento da disputa de natação
O sentimento de toda a galerinha era de pura chateação, pois agora eles passavam a nos aporrinhar literalmente nos diminuindo de todas as maneiras. Percebendo que nossa galerinha deixava a lagoa, após o evidente escárnio que se pronunciava após a fraude, os grandões como acontecia em nossa rua, não se deram por satisfeitos em ficar com a lagoa só para eles. Mas preferiram nos seguir com deveras aporrinhações.
Na hora que passávamos em frente ao casebre do solitário trabalhador da FEPASA, um dos caras grandes mirando a colmeia esticava a tripa de mico do seu estilingue com uma pedra de tamanho razoável. Ninguém percebeu que o idiota concretizaria o fato, até o momento em que ele disse perna pra quem te quer !!!.
E lançou a pedrada, taall…

Vocês não imaginam os momentos de pavor que se seguiram, os enxames vieram em nuvens rápidas como vento. Uma secção de picadas de capotamentos dentro do mato, uma fuga desesperada sobre intensas ferroadas. A expressão dos caras mais velhos, o pouco que se via, passou de gozadores para uma expressão de preocupação com os mais novos, pois o ataque se deu com máxima efetividade. Ao chegarmos na Av do Estado entre bolhas de inchaços, gemidos de dor e alguns despretensiosos risos, os mais velhos conferiam se ninguém havia ficado pelo mato. Constatado que todos ali estavam, andávamos em um silêncio fúnebre rumo ao Parque João Ramalho. Todos pareciam refletir pessoalmente, tudo que acabado de ocorrer.
Quando todos achavam que nada mais poderia acontecer, uma Kombi descaracterizada freava à nossa frente, bruscamente. Alguns sujeitos que lembravam muito policiais civis dos anos 80, uns caras bem broncos de camisas abertas e barba mal feita, com revólver na cinta, sem se identificar nos interrogaram de onde estávamos vindo. Depois de nos revistar tomando os bornais com frutas e hortaliças e tomando o troféu de Damião, identificaram-se como polícia ambiental.
E óbvio que ninguém acreditou e reconheceram um dos garotos como pertencentes ao juizado de menores. Tudo estava confiscado e se dêem por satisfeitos para não irem prestar contas na delegacia, diziam eles.
Enfim, o Patori não ficou com o Bicudo nem com Damião, mas serviu de almoço para alguém.
Cláudio Pereira
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