A SELVA – de Ferreira de Castro

Data de leitura:                                               01-03-2025 a 15-06-2025                             Nome: Luísa FRESTA

Ficha de leitura

Título:                                      A SELVA

Autor:                                       José Maria Ferreira de Castro[1]

Editora:                                    Empresa Nacional de Publicidade ©

Coleção/ Edição:                    –

Ano de publicação:                 1974

Género literário:                      Romance

Número de páginas:               318

Resumo:

Por uma curiosa e inexplicável coincidência, comecei a ler em simultâneo dois romances que se desenrolam praticamente na mesma época, embora em locais diferentes: A CEGUEIRA DO RIO, de Mia Couto, e A SELVA, de Ferreira de Castro. É sobre este último que nos debruçaremos hoje. Mas antes vou confessar-vos que lê-lo foi também a realização de um sonho. Há anos que alimentava uma grande curiosidade sobre esta obra e o seu autor, em parte por ter visitado o Museu Ferreira de Castro, em Sintra, mais do que uma vez. Essa casa e todo o espólio do autor sustentaram a vontade de conhecer A SELVA. O exemplar que li é uma edição especial, com uma encadernação muito cuidada, capa rígida, ilustrações de Júlio Pomar e outros pormenores que também cativam o leitor, como o confortável tamanho da letra e o peso do próprio livro. Tatear esta obra foi uma experiência quase tão fascinante como conhecer a narrativa.

Passemos então ao romance. Alberto é um jovem estudante de Direito, português, simpatizante da monarquia, que encontra no exílio uma forma de escapar ao cárcere durante a Primeira República Portuguesa. É acolhido por um tio, em Belém do Pará, que o alberga e alimenta, mas ao cabo de um certo tempo a sua presença começa a tornar-se pesada e incómoda, pelo que o tio o coage a aceitar um trabalho excessivamente duro e precário, e que, mesmo assim, só se conseguia como uma espécie de privilégio obtido através de favoritismos e das relações pessoais do tio. E que trabalho era essa? Na selva amazónica, Alberto passa a dedicar-se ao corte da borracha e torna-se um seringueiro, igual a muitos outros companheiros de infortúnio, que estavam eternamente e cada vez mais endividados perante o patrão, o qual era também grandemente prejudicado pelo declínio persistente do preço da borracha.

O endividamento asfixiante dos homens diante de Juca, o patrão implacável e frequentemente desumano, embora com alguns gestos de simpatia meramente episódicos, devia-se ao facto de serem forçados a abastecer-se na loja dele, com preços inegociáveis e sem concorrência. Parece um paradoxo, mas aqueles homens, que ansiavam por ganhar a vida dignamente, amealhar algum dinheiro para finalmente poderem partir ou trazer a família, acabavam por tornar-se escravos de um ofício perigoso e mal pago, expostos a doenças várias e sempre profundamente isolados. O ambiente tornava-os gradualmente selvagens, violentos, fragilizados e embrutecidos. Alberto, o rapaz da cidade, educado e com muitos sonhos, sentia-se revoltado e entristecido com a sorte dos seus companheiros, a qual, durante demasiado tempo, foi também a sua.

Na sua permanência no seringal Paraíso, Alberto tece algumas relações de amizade e é confrontado com a abstinência sexual forçada ─ e suas gravosas consequências. Torna-se impulsivo e vulnerável, reflete sobre o seu percurso e sobre a condição humana, e sente saudadas de casa, saudades da Mãe. Terá Alberto a oportunidade de voltar a vê-la e regressar ao seu país? Num ambiente onde havia muito poucas mulheres (e as que lá permaneciam eram quase todas comprometidas) as hormonas masculinas sofrem muitas vezes algum descontrolo levando os homens ao limite da lucidez. Tudo isso é descrito com grande elegância e mestria pelo autor, assim como as reviravoltas políticas lá longe, em Portugal, a penosa viagem de barco pelo rio Madeira até ao seringal, os ímpetos de fuga, a frustração e a aceitação.

Alberto é o centro da atenção do leitor e através dele percebemos que o coração dos homens é também uma profunda e impenetrável selva. O romance, inesquecível epopeia sobre a vida dos seringueiros, aborda temas como o valor da liberdade, a escravatura, a opressão dos camponeses, o desespero e o poder dos mercados. E retrata com lucidez a sociedade da época naquele contexto, assinalando e desenvolvendo muitos pormenores historicamente interessantes como a influência dos japoneses na expansão da agricultura local, mercê da sua paciência, confiança e método de trabalho. Dir-se-ia que parte do que se vivia ali era o reflexo da atitude perante a adversidade e do estado de espírito, pois diante das mesmas dificuldades, pessoas e grupos de diferentes culturas tinham uma abordagem distinta e com graus de eficácia muito variáveis.

“(…) O país novo, desbravado por todos os hibridismos, fecundado pelo amálgama de todos os sangues, mais uma vez carecia, para viver e prosperar, de recrutar em outros continentes os braços de trabalho.

No Sul, sobretudo em São Paulo, os japoneses haviam contribuído para um milagroso desenvolvimento, laborando a terra roxa e aumentando-lhe a riqueza quase virgem.  (…)”

O mato, a selva, era realmente hostil, cheio de mistérios e armadilhas. Ferreira de Castro descreve-o como ninguém neste deslumbrante romance sobre o qual já muito se escreveu e que, até onde sei, já conheceu pelo menos 46 edições e foi traduzido para mais de 10 línguas. Por outro lado, a narrativa é de uma riqueza lexical rara, com descrições incrivelmente envolventes e análises muito certeiras da natureza humana e dos dilemas sociais. Mil e uma razões para nos embrenharmos n’A SELVA.

 

[1] Biografia resumida do autor: “José Maria Ferreira de Castro nasceu em Ossela, Oliveira de Azeméis, a 24 de maio de 1898. Oriundo de uma família de camponeses pobres, fica órfão de pai aos oito anos e emigra, em 1911, com doze anos e a instrução primária, para o Brasil. Por algumas semanas trabalha em Belém do Pará, mas não tarda a ser expedido para o interior da selva amazónica. Permanece ali quase quatro anos, tempo em que escreve contos e crónicas que envia para jornais do Brasil e de Portugal. Com 14 anos redige Criminoso por Ambição, o seu primeiro romance que, mais tarde, aquando do seu regresso a Belém do Pará, em 1916, publica em fascículos e vende de porta em porta. Lança-se igualmente no jornalismo, colaborando assiduamente em jornais e revistas do Brasil.

Publica, em 1928, o romance «Emigrantes» e «A Selva» em 1930, acompanhados de estrondoso êxito nacional. Sobre estes livros, o crítico literário Álvaro Salema, em artigo publicado no jornal O Comércio do Porto, de 12 de maio de 1953, afirma: «A publicação de “Emigrantes”, em 1928, fixou uma data na história literária portuguesa, que é também um ponto de partida decisivo. (…) Ferreira de Castro desvendou com “Emigrantes” e logo a seguir com “A Selva” um novo roteiro para a criação literária no romance, na novela e no conto (…)».

Seguir-se-á, a um ritmo regular, a publicação de outros romances: «Eternidade» (1933), «Terra Fria» (1934), «A Tempestade» (1940), «A Lã e a Neve» (1947). No período imediato ao pós-guerra, Ferreira de Castro torna-se um dos autores mais lidos em Portugal e no estrangeiro – onde a literatura portuguesa pouca expressão tinha. As suas obras estão editadas com sucesso em mais de dez línguas (em França é traduzido por Blaise Cendars) e, com a 10.ª edição de «A Selva», atinge a fasquia de meio milhão de exemplares vendidos em todo o mundo com um só livro.

Durante este mesmo período, Jaime Brasil publica o opúsculo Os Novos Escritores e o Movimento Chamado «Neo-Realismo», reivindicando para Ferreira de Castro a condição de iniciador — e não apenas precursor — do realismo social na literatura. A fama e o reconhecimento do autor não mais cessarão de crescer. Em 1949, a sua editora, a Guimarães, inicia a publicação das Obras Completas do autor, ilustradas por nomes como os de Júlio Pomar, Keil do Amaral, Sarah Affonso, Artur Bual, João Abel Manta, entre outros. Nos anos cinquenta publica, entre outros, os romances «A Curva da Estrada» (1950), «A Missão» (1954) e «O Instinto Supremo» (1968).

Ferreira de Castro foi, por diversas vezes, proposto para o Prémio Nobel e, por outras, recusou sê-lo, em detrimento de outros escritores portugueses.

Ferreira de Castro morre no Porto a 29 de junho de 1974. Apenas um ano antes a UNESCO anunciava que «A Selva» estava entre os dez romances mais lidos em todo o mundo.

Fonte: https://www.wook.pt/autor/ferreira-de-castro/2140/122

 

 

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Sobre Luisa Fresta 52 Artigos
Luísa Fresta, portuguesa e angolana, viveu a maior parte da sua juventude em Angola, país com o qual mantém laços familiares e culturais; reside em Portugal desde 1993. Desde 2012 assina crónicas e artigos de opinião em jornais culturais, revistas e blogues de Angola, Portugal e Brasil, essencialmente sobre livros e cinema africano francófono e lusófono. Esporadicamente publicou em sites ou portais culturais de outros países como Moçambique, Cabo Verde e Senegal. Em 2021 e 2022 traduziu O HOMEM ENCURRALADO e ESPLANADA DO TEMPO, ambos do poeta brasileiro Germano Xavier (edição bilingue português-francês/Penalux). Em 2022 ilustrou o poemário infantojuvenil DOUTRINA DOS PITÓS, do poeta angolano Lopito Feijóo (Editorial Novembro). Desde 2020 mantém um grupo virtual intitulado ESCOLA FECHADA/ MENTE ABERTA, criado no início da pandemia, destinado a divulgar literatura infantojuvenil e artes plásticas, nomeadamente ilustração, com especial incidência no universo lusófono e francófono. O principal objetivo é consolidar os hábitos de leitura das crianças, estimular a leitura em família e o gosto pelo desenho; e aproximar escritores e ilustradores de leitores e da comunidade escolar. Tem textos dispersos por antologias, alguns dos quais integraram projetos pro bono, e outros premiados em Portugal e no Brasil, desde 1998; assim como um livro de poesia vencedor do prémio literário Um Bouquet de Rosas Para Ti, em Angola, atribuído pelo Memorial António Agostinho Neto (2018). Curiosidade: o poema Casa Materna, que dá título ao livro (originalmente designado por Casa ambulante), foi distinguido com o 2º prémio de poesia internacional Conexão Literária (Câmara Municipal de Divinópolis/Brasil) quando a obra já se encontrava em processo de edição. OBRAS DA AUTORA: Contexturas (contos, baseados em quadros de Armanda Alves, coautora), Livros de Ontem, 2017; Março entre meridianos (poesia, 1º prémio “Um Bouquet de Rosas para Ti”), MAAN, 2018; Março entre meridianos (reedição), Livros de Ontem, 2019; A Fabulosa Galinha de Angola (infantojuvenil), Editorial Novembro, 2020; Sapataria e outros caminhos de pé posto (contos), Editorial Novembro, 2021; Burro, Sim Senhor! (infantojuvenil), Editorial Novembro, 2021; Casa Materna (poesia), Editorial Novembro, 2023; A Idade da Memória (infantojuvenil, contos inspirados na poesia de Agostinho Neto. Coautora: Domingas Monte; ilustrações: Júlio Pinto), Mayamba Editora, 2023; No País das Tropelias e Desventuras (Coleção Capitão/ infantojuvenil), Editorial Novembro, 2024.

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