Ficha de leitura
Título: A Senhora Bâ[1]
Autor: Erik Orsenna[2]
Editora: Livros Horizonte ©
Tradução: Ana Moura
Ano de publicação: 2007
Género literário: Romance
Número de páginas: 357

Resumo: O seu nome de solteira é Marguerite Dyumasi, convertida em Madame Bâ pelo casamento. Este surpreendente romance de Erik Orsenna, um autor e académico multifacetado, que demonstra ter uma grande proximidade com o Mali e uma larga experiência em assuntos relacionados com o continente africano, apresenta uma estrutura fora do comum.
Marguerite, a narradora, uma professora e inspetora escolar já na maturidade, dispõe-se a preencher um formulário de pedido de visto para França com a ajuda de um paciente e atento advogado. O que seria uma formalidade administrativa para muitos, uma dor de cabeça para outros e um labirinto de perguntas para grande parte dos candidatos, para Marguerite é pretexto para corporizar o romance contado na primeira pessoa. A resposta a cada campo do detalhado formulário transforma-se num ou em vários capítulos, uma volumosa carta a endereçar ao presidente francês. Não existem perguntas fechadas nem de resposta sumária. Não se podem resumir as raízes numa única palavra, nem a filiação, nem o estado civil, nem tantos outros aspetos da vida em sociedade que são codificados sucintamente numa pergunta impessoal e simultaneamente intrusiva, inquisidora ou invasiva. A organização das sociedades e as instituições que a refletem usam uma linguagem metódica e sistematizada. Mas Marguerite tem muito mais a contar, para nosso gáudio, com particularidades de grande profundidade e interesse, sobre a sua etnia, região, família e origens. Sobre a sua postura como indivíduo e como mulher.
Neste romance aprendemos sobre os hábitos e idiossincrasia dos Soninkés e de passagem deparamo-nos com apontamentos curiosos sobre Peuls, etnia do fascinante marido Balewell Bâ, do qual Marguerite herdaria o apelido. Embora se trate uma obra de ficção, riquíssima, estas pinceladas sensíveis sobre Soninkés e Peuls, Malianos e Franceses, ajudam-nos a formar uma ideia sobre povos que porventura conhecemos mal ou superficialmente.

Por outro lado, cada indivíduo é um mundo, cheio de ramificações e momentos inesperados. É isso também que nos mostra a Senhora Bâ: ela fala-nos dos seus pais, do seu carácter, valores, missão social e quotidiano, dos sonhos profissionais e da dinâmica familiar, da importância da eletricidade e dos rios Senegal e Níger. Da maneira como o rio dialoga e inspira a população das suas margens, de como lhe é vital essa presença líquida, azul e sinuosa. Marguerite reflete sobre as relações complexas entre a França e o Mali, sobre tradição e modernidade, castas, pragmatismo e utopia, num Mali ainda colónia francesa e no pós-independência. Sem tabus nem melindres, mas com muita indignação e sentido de justiça, mostra-nos o poder corrosivo da corrupção e os vícios ocultos das sociedades, tanto rurais como urbanas, no Mali ou em França. Nomeadamente em algumas das suas populosas cidades da periferia de Paris, como Montreuil e Saint-Denis, que contam com uma forte presença de imigrantes malianos, sobretudo provenientes de algumas regiões, como Kayes.
Marguerite conta-nos também sobre o amor romântico, a paixão sensual e a sua experiência matrimonial com Balewell, o belo Peul, um macho excessivamente solícito – solicitado pelo género feminino – e maquinista da linha Bamako-Dakar. Com Madame Bâ conhecemos ainda toda a teia de relações familiares, desde a infância, a cumplicidade amorosa com o pai e com a mãe, a figura do avô (Abdoulaye Victor, aliás Chemin des Dames), antigo combatente da Grande Guerra, os numerosos irmãos e filhos, a importância do casamento, da maternidade e de gerar descendência, na sociedade local. Alguns leitores estarão mais ou menos familiarizados com a intervenção dos marabus em casos de suspeita de esterilidade e a maneira como são lépidos a cobrar-se de serviços prestados, na maior parte das vezes ineficazes. A sua atividade mantém uma certa aura, depreende-se da narrativa, associada à cultura e às crenças locais (e talvez, pensará o leitor, devido também à falta de outros recursos como os cuidados primários de saúde).
Certas passagens deste romance, sobretudo as que descrevem a infância da Senhora Bâ, podem conter aspetos bastante técnicos relacionados com a central hidroelétrica…o que tem crucial interesse na medida em que o seu pai era um homem que amava e confiava na Ciência, transmitindo muitos dos seus conhecimentos, experiência, objetividade e pragmatismo a Marguerite.

De resto, além de um emaranhar de histórias magnificamente contadas e vividas sobretudo no Mali, o leitor pode esperar embarcar numa viagem devoradora, de fortes emoções e muita ação, junto da narradora e das suas ligações. Conhecer o colorido local, as relações entre as pessoas, as instituições, as estruturas formais e informais, o poder sombra, e as expetativas de evasão, de emigração, sobretudo entre os mais jovens. Como Fatou Diôme, no seu livro Le Ventre de l’Atlantique (publicado na mesma época), Erik Orsenna aborda através de Marguerite o drama dos jovens, quase crianças, sugados para o estrangeiro através de artimanhas criativas e da mais torpe manipulação; explorando os seus sonhos pueris, o desejo de se tornarem futebolistas de topo, com promessas aliciantes, um punhado de notas, e amparados por máfias diversas e cumplicidade de gente sem escrúpulos. Esse drama atinge diretamente a família da narradora, que tudo fará para proteger o neto.
As armadilhas da burocracia, o inferno labiríntico dos escroques, no que se refere à triagem para atribuição de vistos, as desconfianças insuspeitas e os inimigos invisíveis, tudo isso é relatado com grande pureza e coragem neste romance. Marguerite Bâ é uma mulher que permanece em nós muito depois de terminada a leitura, assim como o seu fiel advogado e defensor Benoît Fabiani.

[1] Título original do romance: Madame Bâ (Librairie Arthème Fayard, 2003).
[2] Biografia do autor: “Nascido em 1947, Erik Orsenna é escritor, economista, membro da Academia Francesa e especialista em desenvolvimento sustentável do ambiente, da agricultura e das economias emergentes. Após estudos de filosofia, ciência política e economia, foi professor de Finanças Internacionais e de Economia do Desenvolvimento na Universidade de Paris I e na École normale supérieure de Paris. Conselheiro cultural do presidente Mitterrand de 1983 a 1984, foi assessor de Roland Dumas para as questões africanas no Ministério dos Negócios Estrangeiros no início dos anos 1990. Nomeado conselheiro de Estado em 2000, integra o Alto Comissariado para a Francofonia e é embaixador do Instituto Pasteur. Autor de numerosas obras, ensaios e romances, recebeu o Prémio Goncourt por L’Exposition coloniale em 1988, o Prémio Joseph-Kessel por L’Avenir de l’eau em 2009 e o Grande Prémio da Sociedade de Geografia de França pelo conjunto da sua obra em 2021. Preside à associação Iniciativas para o Futuro dos Grandes Rios.”
Fonte: https://www.wook.pt/autor/erik-orsenna/14709/122
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