“Em busca de Madalena Santos Reinbolt”, de Nélio Silzantov: Romance cria tessitura afetiva de mulher que bordou a vida como uma pintura sobre pertencimento

Há que ter paciência para passar a linha no tear ponto por ponto para elaborar uma obra de arte.  Se a vida também é feita de linhas resolvidas, ou não, de acordo com ponto-pessoa na colocação da tapeçaria do destino de cada um.  No romance do escritor Nelio Silzantov, “Em busca de Madalena Santos Reinbolt” (Litteralux, 2026), há também este bordado sobre como a arte perfila o temperamento dos personagens.  A arte constrói histórias até biográficas. É o caso da narradora-personagem que conta a história de sua família no interior da Bahia, com sua casa da farinha, com filhos, cada qual com suas particularidades: a surdez de um, a emancipação de feminista de outra.  Com uma linguagem extremamente lírica, o autor faz do texto uma tessitura de afeto sobre a cultura conquistense. Mas há um forte elemento-personagem que costura toda narrativa na voz da pintora Madalena Santos Reinbolt, uma mulher que trabalhou durante a vida como empregada doméstica que teve de criar pinturas e tapeçarias para aliviar a dor da obediência servil. A narradora parte para São Paulo para conhecer num museu sua obra completa — a sublimação da arte molda cada estilo de vida, cada jeito de ser no mundo. Nélio fez um romance lindo sobre pertencimento numa sociedade elitista e classista.

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Abaixo, a entrevista com o escritor Nélio Silzantov.

Fernando Andrade:  A arte sublima a vida, mas também estetiza os elementos semióticos de produção. Madalena Santos Reinbolt viveu um pouco à margem dessa linha estética de produzir arte. Por que quis falar dela?

Nélio Silzantov: Trazê-la de volta para casa foi a primeira motivação, presentificar esta grande artista entre os seus conterrâneos que, infelizmente, sequer sabem de sua existência — ao menos a grande maioria ainda hoje a desconhece. Quando me deparei com Madalena, enquanto escrevia meu primeiro romance, pesquisei sobre ela nos blogs e sites de notícias locais e não encontrei nada a seu respeito, nem mesmo nos repositórios acadêmicos. Tudo o que eu encontrava vinha de fora, de outros estados, sobretudo do Rio e de SP. Era como se Madalena não existisse, e aquilo foi a coisa mais absurda e angustiante para mim. Depois percebi que era preciso falar sobre o lado humano dessa mulher-mito, de quem, até então, só tínhamos conhecimento do seu lado artístico. Pouco se sabe sobre a vida pessoal de Madalena, especificamente sobre o seu passado em Vitória da Conquista, sua terra natal. As poucas informações a seu respeito vêm da única entrevista que ela concedeu à Lélia Coelho Frota, uma museóloga, crítica de arte e curadora brasileira, que apresentou Madalena e suas obras ao grande público por meio de seu livro Mitopoética de 9 Artistas Brasileiros. Chamei Madalena de mulher-mito porque, se olharmos para tudo o que se diz a seu respeito, veremos apenas essa tentativa de dizer algo da humanidade de uma mulher sobre quem não sabemos praticamente nada — e nisso incluímos tanto a pessoa que Madalena foi quanto o lugar de onde ela veio, o que, para mim, é fundamental para conhecermos melhor o sujeito e os objetos centrais dessa história, ou melhor, para conhecermos o lado humano dessa mulher por trás da sua imagem como artista e de todo o simbolismo contido em suas obras. Por último, busquei tornar mais expressivo o que antes tratei apenas como referência. Em meus romances anteriores, a arte ocupou o segundo plano no seio da narrativa, numa espécie de tentativa de promover um diálogo ou expansão da trama por meio de referências musicais, fílmicas, literárias etc. Desta vez, inúmeros artistas povoam os núcleos de personagens, de modo que venho dizendo que este romance é também uma ode à arte, sobretudo aos artistas marginalizados de minha terra natal.

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F. A.: Seu romance trata também da autonomia feminina de se autogerenciar fora do núcleo familiar. A narradora parte para um curso sobre artes para conhecer mais sobre tudo o que orbita em torno de Madalena. Você acha que se apropriou deste viés feminista no seu livro?

N. S.: A escrita deste romance exigiu um olhar mais profundo sobre a condição humana feminina. Mais que isso, foi preciso olhar como nunca olhei para as mulheres da minha própria família. Entender não apenas os afetos e as ausências daqueles que compõem minha relação com elas, mas, acima de tudo, seus arranjos e desarranjos no lado prático das coisas, seus modos de ser e estar no mundo. Antes de textualizar qualquer conceito — que não passa de uma tentativa entre muitas de dar conta da concretude de algo —, foi preciso me emaranhar na cotidianidade das mulheres ao meu redor e me aproximar, tornar-me íntimo disso que você chamou de autonomia feminina, que vejo mais como uma mescla entre o instinto de sobrevivência em um mundo opressor e a artesania da vida, essa capacidade de lapidar a brutalidade das coisas e transformá-las em algo belo e sublime. Minha avó materna saiu recém-casada da zona rural para Conquista, ficou viúva poucos anos depois e teve que se virar como empregada doméstica em São Paulo para criar três filhos, até não suportar mais aquela vida e retornar para casa, onde se dedicou ao ofício de costureira até o final de sua vida. Minha mãe seguiu os mesmos passos aos dezesseis anos de idade: trabalhou como doméstica em Guarulhos e depois retornou com minha avó para Conquista, onde aprendeu os macetes do corte e da costura com ela, e depois repassou seus conhecimentos para minhas irmãs, que também exerceram a profissão. Elas não foram as únicas que saíram de suas casas em busca de uma nova condição de vida, muitas vezes sem contar com qualquer apoio, sem nenhuma rede de proteção, e outras contando apenas com o apoio de outras mulheres. Quando olho para a história de Madalena vejo essa mesma dinâmica em movimento, e embora Lota de Macedo Soares e sua parceira Elizabeth Bishop tenham deixado uma marca significativa em sua trajetória, ainda me espanta a escolha que as duas patroas fizeram entre “a arte e a paz”, isto é, entre “desfrutar uma obra-prima todo dia” ou ter uma empregada inteiramente dedicada aos afazeres domésticos. Lota não mediu esforços para dar abrigo e apoio à poetisa norte-americana, mas se furtou a oferecer o mínimo àquela que em pouco tempo se tornaria uma das maiores referências nas artes visuais — intuição que Elizabeth Bishop frisou textualmente em suas cartas —, e não pensou duas vezes em demitir Madalena. Os caminhos que as personagens do meu romance percorrem são, em alguma medida, reflexo da mesma sorte que inúmeras mulheres encontram. E a narrativa que elaborei faz esse jogo entre realidade e sonho, entre agarrar-se à vida nas condições em que ela se apresenta e a possibilidade de viver seus próprios sonhos — o que nem sempre é possível, ou muitas vezes é adiado por conta de outras necessidades e urgências impostas.

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F. A.: Queria que você falasse um pouco sobre sua escrita, particularmente neste livro. Há um envolvimento bastante poético, quase lírico, com frases muito bem lapidadas.

N. S.: A narradora-protagonista deste romance é uma escritora em formação que traz como legado familiar a contação de histórias, de causos reais e fictícios presentes na memória da população local. A oralidade é, neste sentido, uma característica fundamental para o desenvolvimento da narrativa, tanto no que diz respeito à tecitura da trama — o uso de composição oral-formular, de narrativas extensivas e episódicas, epítetos, repetições, símiles, paralelismos, discursos diretos, ritmo e musicalidade, o que me fez retornar à Ilíada e à Odisseia de Homero, e aos longos monólogos de Dostoiévski — quanto para mimetizar a linguagem em consonância com os espaços, com a passagem do tempo, com os estados de espírito das personagens e com a memória. Há uma constante transição no tom e no estilo, às vezes sutil, às vezes abrupta, que obedece à dinâmica das cenas e à divisão capitular da história em três momentos: um passado longínquo, um passado recente e o presente da narrativa. Em termos estilísticos, se olharmos para aquilo que o mercado espera das narrativas contemporâneas (com suas fórmulas consolidadas, tudo muito redondo e padronizado), a escrita deste romance se apresenta como uma espécie de “hibridismo inadequado das vozes ecoadas no chão de terra batida às elucubrações dos literatos de apartamento”, como a própria narradora observa. Inadequado justamente por não corresponder ao que a ortodoxia literária espera, porém, muito condizente com a intenção de expressar o processo de formação de uma escritora, que traz na sua escrita esses múltiplos registros culturais e linguísticos. Um estilo heterodoxo, por assim dizer, o que é, de certa forma, uma marca presente em meus trabalhos anteriores.

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Fernando Andrade, crítico literário.
Autor, entre outros, do livro Obras são morfemas.

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