Ficha de leitura
Título: La vie devant soi[1](Uma vida à sua frente)
Autor: Romain Gary (Émile Ajar)[2]
Editora: Mercure de France ©
Coleção/ Edição: folio
Ano de publicação: 1975
Género literário: Romance
Número de páginas: 274
Resumo:
La vie devant soi é uma obra marcante em múltiplos sentidos. Sobretudo pela comovente relação simbiótica e fusional entre o pequeno Momo (Mohammed) e Madame Rosa, uma velha senhora judia sobrevivente de Auschwitz. Entre eles constrói-se um pacto não explícito de proteção mútua, de nunca se abandonarem. O romance é narrado pelo pequeno Momo, um rapazinho de idade incerta entre o fim da infância e o princípio da adolescência, que foi entregue aos cuidados desta invulgar senhora com apenas três anos. Na verdade, a idade é referida, a propósito do desenrolar da narrativa, mas o mais relevante não é o número que a representa, mas a maturidade subentendida na inocência, as experiências vividas, pela intensidade e duração.
Madame Rosa é uma antiga prostituta, reformada, de coração gigante e fina inteligência, que aprendeu a duras penas a arte de sobreviver, até onde lhe foi permitido. A sua casa, num sexto andar sem elevador, abriga um “clandé[3]”, o assim designado poiso clandestino de filhos de mães prostitutas. Algumas dessas crianças têm pai incerto ou desconhecido, eventualmente proxeneta. O espaço físico das escadas e o trajeto incessante de cima abaixo é um movimento muito visível na narrativa. Assim como a existência de um abrigo, real e simbólico. A casa de Madame Rosa era o oásis possível na vida de algumas crianças, que o sistema de proteção à infância parecia devorar anonimamente sem conseguir, no entanto, oferecer-lhes um ambiente familiar previsivelmente digno e feliz. De outro modo, depreende-se da narrativa, as crianças seriam separadas das mães de forma abrupta e definitiva, completamente impossibilitadas de construírem qualquer tipo de laço, por mais ténue que fosse, com as progenitoras.

Mas Momo não tinha, aparentemente, uma ascendência clara. Lembremo-nos que a narrativa da própria criança adultizada pelas circunstâncias inclui incoerências e solavancos propositados, astúcias, palavras incorretas ou usadas de forma fantasiosa, com passagens quase constantes de fino e ácido humor, em meio a lágrimas resolutamente escondidas e sorrisos silenciados. Momo e Madame Rosa têm uma relação muito especial, insubstituível, sólida e definitiva. A obra não endeusa a criança nem a excêntrica Madame Rosa; o que é invulgarmente belo é a relação que construíram no quotidiano: leal, afetuosa, cúmplice, corajosa e protetora, nos dois sentidos. Madame Rosa era uma mulher talhada para dar amor, ainda que o exprimisse muitas vezes de forma rude, inesperada e desajeitada. Momo percebia-a e amava-a como ninguém.
A postura da velha senhora, ao mesmo tempo discreta, astuta e desconfiada, granjeou-lhe o respeito e a amizade sincera de muitas outras pessoas das redondezas: a exótica e extravagante Madame Lola, forte, solidária e afetuosa, o senhor Hamil, admirador confesso de Victor Hugo e de Os Miseráveis, o Dr. Katz, judeu como ela, médico de grande humanidade e conhecimento das coisas simples e importantes da vida, para lá da vida dos livros e da ciência. Madame Rosa era uma pessoa muito expedita e eficiente, amorosa e desembaraçada. A passagem pelos campos de concentração e pelas ruas de Paris deixou-lhe marcas definitivas de susto, precaução e reserva. A sobrevida das décadas seguintes não foi como num campo de férias, mas ela soube povoá-la de amor e humor, de coqueteria e feminilidade, de bondade, que ia intercalando com sobressaltos e manifestações recorrentes de stress pós traumático.

(Note o leitor que eu pretendia apenas fazer um rápido comentário e não um guia atabalhoado de spoilers, mas a história extravasou para o comentário. Garanto, no entanto, aos leitores, que nada do que vos digo retirará um pingo de interesse à leitura). Neste romance fala-se dos meandros da prostituição nas ruas, de preconceito e estereótipos, dos desafios da emigração, de solidariedade e ternura. E também das limitações causadas pela obesidade, pela doença e envelhecimento, num quadro de pobreza e exclusão. Refere-se o acolhimento institucional, a proteção à infância, e a informalidade das relações entre vizinhos e companheiros de infortúnio.
« (…) Infelizmente, Madame Rosa estava a passar por mudanças, devido às leis da natureza que a atacavam por todos os lados, pernas, olhos, órgãos conhecidos como coração, fígado, artérias e tudo o que pode ser encontrado em pessoas muito desgastadas. (…) »[4]
P.87
No prédio e no bairro de Belleville, em Paris, onde se desenvolve a narrativa, vivem muitos emigrantes, africanos, magrebinos, judeus, das mais diversas origens que ali aportaram por razões diferentes. Árabes e Judeus, Africanos e Franceses, convivem humanamente e entreajudam-se como podem, mantendo embora as suas práticas religiosas e culturais, conservando a memória das línguas e da geografia primeira. Aplica-se o princípio do sincretismo filosófico ou religioso e o amor pelo próximo sobrepõe-se a tudo o resto. A justiça é maior do que a Lei, a lealdade é mais forte do que a mera obediência. A visão de Momo, personagem-narrador, contamina o leitor. Momo é cândido e divertido, intuitivo e perspicaz, muito sério e responsável também, revoltado, ágil, excecionalmente desenrascado (um mini Relações-Públicas), dinâmico e carente. Um sobrevivente. Com este menino árabe e muçulmano atravessaremos a nossa própria infância e o coração dos outros, que está sempre ao lado do nosso.

Nota: O autor recebeu pela segunda vez o prémio Goncourt, em 1975, por este romance. Tal proeza só foi possível devido ao facto de tê-lo assinado com um pseudónimo. Trata-se de algo inédito, não contemplado pelas regras do próprio prémio, e que não se repetiu até à data.
Este artigo do público, assinado por Isabel Coutinho (O escritor que recebeu o Goncourt duas vezes) explica a situação: https://www.publico.pt/2011/01/19/culturaipsilon/noticia/o-escritor-que-recebeu-o-goncourt-duas-vezes-273471
[1] Romance traduzido para português com o nome de Uma vida à sua frente (Portugal) ou A vida pela frente (Brasil) e publicado por várias editoras ao longo dos anos: (Livros do Brasil e Todavia). Esta obra foi traduzida para mais de vinte línguas e conta com várias adaptações para o cinema (La Vita Davanti a Sé, um filme de 2020 assinado por Edoardo Ponti, com Sophia Loren no papel de Madame Rosa e La Vie Devant Soi, de 1977, realizado por Moshé Mizrahi, com Simone Signoret a interpretar Madame Rosa).
[2] Biografia do autor: “Romain Gary nasceu em 1914 em Vilnius, na Lituânia (então Polónia). Judeu de origem russa, emigrou com a sua mãe para Nice em 1928. Em 1940 junta-se ao general de Gaulle e às forças livres francesas em Londres e combate como navegador da esquadrilha «Lorraine» até ao final da guerra. Ferido, recebe a condecoração suprema dos combatentes franceses, Compagnon de la Libération e foi um dos poucos sobreviventes dos duzentos homens da esquadrilha. O êxito dos seus primeiros romances, Educação Europeia e As Raízes do Céu (Prémio Goncourt 1956) tornaram-no imediatamente um escritor famoso em todo o mundo. Ocupou vários postos diplomáticos na Europa e nos EUA. Em 1975, escrevendo sob o pseudónimo Émile Ajar, ganhou de novo o Prémio Goncourt (caso «impossível» na história do prémio) com Uma Vida à Sua Frente. Gary suicidou-se em 1980, pouco mais de um ano depois do suicídio da sua ex-mulher Jean Seberg. Deixou escrito um pequeno opúsculo intitulado Vida e Morte de Émile Ajar, texto extraordinário onde revelou a «mistificação» Ajar.”
[3] Na verdade, “clandé” é um termo usado, fora deste contexto, para designar uma casa de prostituição ou uma casa de jogos clandestina, em calão. Fonte: https://www.larousse.fr/dictionnaires/francais/cland%C3%A9/16342
[4] « (…) Malheureusement, Madame Rosa subissait des modifications, à cause des lois de la nature qui s’attaquaient à elle de tous les côtés, les jambes, les yeux, les organes connus tels que le cœur, le foie, les artères et tout ce qu’on peut trouver chez des personnes très usagées (…) ». (Pág. 87. Em francês, no original). Tradução livre da autora da ficha de leitura.
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