O desencanto instalado com sucesso!
Esperança? Nunca tive, tanto que sempre me referia a mim mesma, na juventude: “Oh, vós que ousais adentrar ao Mundo de Beth, perdei toda esperança”, mas nunca neguei o meu encanto de viver no mundo, apesar dos pesares, apesar dos pesos e da melancolia, apesar da filosofia angustiante de existir para sempre.
Viver em meio a Natureza, subir e descer montanhas, escutar o barulho sereno dos riachos o som barulhento de uma cachoeira em meio a um sono desperto sob a lua cheia, ver as estrelas derramando brilhos e luz em você. Apreciar a Arte que traz beleza intensa para os sentidos…A Poesia que traz alívio para a alma tão pequenina, pode encantar de tal forma que a desesperança é só mais um apetrecho filosófico para tornar a vida mais interessante. Ouvir uma música que realinha os neurônios de uma só vez, o som que carrega a alma para sua terra original. Todas as formas de Arte, traz uma beleza generosa para os humanos, de um jeito inexplicável, orgânica e prazerosa. A Arte feita por mãos humanas, as mesmas mãos calorosas, quentes, sedutoras e encantadoras, que acariciam, que abraçam e transmitem calor, carinho e cura ao mesmo tempo.
Mas agora, o encanto está escorrendo entre nossos dedos tão frágeis e tão sedutores. A máquina o fará por nós, como já dizia o Poeta Cassiano Ricardo.
LADAINHA
Por que o raciocínio,
os músculos, os ossos?
A automação, ócio dourado.
O cérebro eletrônico, o músculo
mecânico
mais fáceis que um sorriso.
Por que o coração?
O de metal não tornará o homem
mais cordial,
dando-lhe um ritmo extra-
corporal?
Por que levantar o braço
para colher o fruto?
A máquina o fará por nós.
Por que labutar no campo, na cidade?
A máquina o fará por nós.
Por que pensar, imaginar?
A máquina o fará por nós.
Por que fazer um poema?
A máquina o fará por nós.
Por que subir a escada de Jacó?
A máquina o fará por nós.
Ó máquina, orai por nós.
Cassiano Ricardo
Comecei a ficar agoniada, outras vezes nauseada, outras vezes triste e em todas, desencantada. Não estou me referindo aquele Universo em Desencanto que Tim Maia cantava, mas o meu Universo Interno, num desencanto dolorido de ficar olhando as Artes se derretendo em IAs. Arte orgânica sendo trocada pelos traços frios de uma máquina, o som sendo manipulado pelos ouvidos sem vida de uma máquina, a poesia e o romance escrito pelo fantasma de uma máquina sombria. Conheço pessoas, que se dizem artistas, usando a IA para criar as suas artes. Eu preferia aquele desenho dos homenzinhos desenhados com um círculo e as linhas formando os braços e pernas, pelo menos eram feitos de verdade, por alguém. Agora você olha aqueles desenhos padronizados criados por IA que até as cores são estranhas e nem existem na Natureza, são tão desencantadoras e não traz nenhuma sensação de prazer ou de despertar algum questionamento dos detalhes. Nunca mais teremos um Van Gogh ou um Goya? Nunca mais teremos um Machado de Assis ou Emily Brontë? Nunca mais teremos um Beethoven ou um Nelson Cavaquinho? Estamos abandonados num mundo artificial, sem consolo, sem prazer e sem a sensação da beleza que preenche nossos anseios?
Oh deuses, onde estão que não escutam esse lamento dolorido do meu coração, em perder toda a graça diante do mundo, de perder todo encanto, enquanto fico me perguntando se é real ou IA?

Acho que a tecnologia é importante e a Ciência conseguiu avanços fenomenais com a ajuda das máquinas. A medicina está encontrando curas espetaculares para várias doenças que não seriam possíveis sem a ajuda das IAs. A minha ressalva é sobre as Artes – a Literatura, a Poesia, a Música e outras formas de arte. Nas plataformas, não se consegue fazer nenhuma pesquisa sem a interferência das IAs. As pessoas estão conversando com elas como se fossem seres pensantes, como se fossem seres com emoção porque respondem o que se quer, depois de fazer todos os cálculos em cima daquele que ainda é tão humano que não consegue distinguir uma coisa da outra. É tão humano que é carente o suficiente para acreditar em uma máquina. As pessoas se apaixonando pelas IAs como se fossem seres a altura de seus anseios e desejos, esses mesmos desejos que poderiam ser satisfeitos com outros humanos de carne e osso, no calor e fogo dos sentimentos, mas…Ficam trocando ideias com as máquinas porque se apaixonam pelo que elas dizem, treinadas pelos algoritmos que parecem raposas num galinheiro. Nós humanos temos uma necessidade de palavras bonitas em nossos ouvidos e a máquina oferece isso, paga ou gratuitamente, conforme a plataforma. E conforme o treino, são burras como uma porta.
E não tem como reverter esse quadro – o desencanto foi instalado com sucesso. Muito triste!
Elizabeth de Souza
041026
Dia de eleição no Brasil.
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