Pacto com o inevitável
Entre tantos diálogos produtivos, relevantes e prazerosos que temos durante a vida, um desses dias me levou a revisitar, revisar e refletir sobre este cordel que escrevi faz muitos anos.
Para mim o fim sempre foi uma necessidade, nada nem ninguém suportaria viver para sempre, tudo precisa chegar ao fim.
Pacto com o inevitável
Gosto quando me visita.
Em prosa descontraída
Regada a gula e luxúria
Rimos, falamos da vida.
Que as vezes é um saco,
Mas é de caco em caco
Que a gente paga a dívida.
Não te chamo de injusta
Muito menos de ingrata.
É como diz o ditado
“O que se planta, se cata”
Então com todos meus medos
Deixarei entre os dedos
Minhas moedas de prata.
Aqui firmo um contrato
Com a senhora dona morte,
Pois no caminho da vida
Os seus braços são um norte.
E pra deixar mais fiel
Vou escrever em cordel
Os termos de minha sorte.
Ter alguns anos a menos
É minha parte no contrato.
Se quiser chegue bem antes
Para consumar o ato.
Em troca de dignidade
Reduzo minha idade
Como o preço deste pacto
Não esqueça cada cláusula!
Em um domingo chuvoso,
Em uma tarde cinzenta,
Com um frio silencioso
E nada na televisão.
Folhas chiando no chão
Sob um vento manhoso
Assim quero minha vez
Na rodada do baralho
Quando então vieres
Me visitar a trabalho.
Segurarei tua mão fria
Para seres minha guia
Nessa rota sem atalho.
Nesse dia sim, não terá briga.
Será uma bela cena
De um ato teatral
Que finda sob luz serena.
Pra tu, sagrado ofício,
Pra mim, mais um reinício
Que farei valer a pena.
Willim Prado
![]()

Maravilha William!
O café do fim do mundo com os amigos desperta a gente para nossos poemas antigos. E falar da poderosa Donzela da foice não é para qualquer um.
Aproveito para também colocar um poema antigo sobre ela. Valeu!
A Morte
A morte…
Donzela torpe e endoidecida
vem tranquila
ou
em ondas/tumultuada/explosiva/sorrateira/esperta/calculada.
Amiga
de velhas vidas colecionadas.
Oferece suas mãos esquálidas
quando junto a Caronte, atravessam o Estige.
Um laço esquecido?
Presente
no meio da vida
qual um calo no pé, uma pedra no meio do caminho
um insulto a inteligência (h)umana.
Caçadora espreitando a caça
antes, com olhos de longo alcance
pudesse vê-la, do lado esquerdo
como já dizia o velho índio.
Inesperada
sabendo de antemão que é uma meia certeza
já que não se tem uma certeza e meia
do elixir da longa vida
aquele tesouro escondido
no silêncio dos secretos laboratórios.
E os seres vão seguindo, imortais ou imorais?
Até aquele fatídico dia
do encontro real
onde 2+2 torna-se 5
na matemática imprecisa e certeira.
Mas qual o que
(h)umanos não compreendem o óbvio.
Enfeitam o feito para distorcer o fato
de que a morte vem/simplesmente vem/naturalmente vem
Inútil render culto ao morto
melhor seria,
render culto à Morte.
Elizabeth de Souza