Um SKINHEAD amigo do Cipra, amigo meu

Makbaker, o SKINHEAD
Ali no escritório da Paulista, apareciam muitos punks e nunca perguntei nada sobre como eles chegavam até ali, no nosso local de trabalho. Mas muitos dos que apareciam sequer conheciam o Cipra.
Geralmente vinham, cumprimentavam, trocavam algumas ideias, entregavam ou vinham em busca de algum fanzine.
Alguns não voltavam mais, enquanto alguns retornavam rotineiramente e alguns, vez ou outra. Para sorte do Cipra, minha e de um rapaz chamado Luiz, que também ali trabalhava, nunca sofremos nenhuma retaliação da diretoria que ficava em uma sala ao lado.
Apenas as secretárias que vez ou outra deixavam transparecer pela fisionomia, algum desconforto, pois alguns punks realmente tinham um visual realmente chocante.
Mas por nunca ter havido nenhuma reclamação, a presença deles era constante. E essa rotatividade de pessoas era bem legal, porque conhecemos pessoas interessantes, com visões de mundo bem peculiares.
Uma dessas pessoas era um skinhead conhecido por Makbaker, talvez tenha sido uma das influências que fizeram o punk pobreza (Cipra) passar a adotar o visual skin juntando a outros bons acontecimentos que permeavam sua vida naquele momento – passar a adotar práticas mais saudáveis do que o estilo de vida desregrado, um estigma punk que se perdurou por muito tempo.
Uma diferença que particularmente notei, referente a alguns punks e skins e carecas do subúrbio que conheci, é que o skinhead Makbacker tinha alguns diferenciais que me faziam pensar que ele não era propriamente um skinhead de verdade, puro preconceito meu talvez.
Mas com o decorrer do tempo fui notando que talvez ele pertencesse à algum grupo específico de skins. Essa primeira e errônea impressão se deu por alguns fatores, por ex:
– Ele vivia de bate papo com jovens da escadaria da Paulista 900, onde se encontra em sua totalidade os estudantes do colégio Objetivo. No mesmo espaço existia um cinema com uma grande rotatividade de público, um prédio onde ficava a TV Gazeta e ao lado existia um Center. Para os jovens ou os que nunca foram a mais Paulista das avenidas, havia alguns centers nela como o Center 1, Center 2, Center 3, que nada mais eram os primórdios do que viria a ser os shoppings centers.
Esses Centers, faziam com que os transeuntes cortassem caminho ao entrar por essas passarelas e você saia às ruas laterais, ao invés de ir até a esquina para acessá-las ao percorrê-las. Nós, os mais pobres íamos observando nas vitrines, quantas coisas que não podemos comprar há,há,há, brincadeiras à parte, eram também bons pontos de encontro para se bater papo, tomar um sorvete ou apenas sorver um café e até se podia pitar um cigarrinho, que não havia ainda a proibição por lei.
Também havia sob o prédio da TV Gazeta, a primeira torre de transmissão, que na época era uma espécie de cartão postal da cidade.
Ao vê-lo com frequência por ali, julgava que não era um público ao qual os skins, que eu conhecia, compartilhavam seus ideais.
Outra evidência que comecei a notar era que diferente dos discursos dos punks e skins do meu convívio, Makbaker só falava de São Paulo, enquanto os punks falavam sobre o surgimento de um fanzine dos punks de Recife, uma nova banda hardcore surgiu no Interior, etc. Ou comprimentos que alguns skins adotavam: – “Salve a nação”. A nação de Makbaker era São Paulo, um detalhe interessante, que até então eu não conhecia.
Tattoo nos anos 80

Lembrando que estamos recordando os anos 80, nessa época as tatuagens eram marginalizadas, meu pai e os pais de muitos amigos meus proibiam terminantemente qualquer carimbo no corpo por ex.
Se você fosse procurar emprego e tivesse alguma tatuagem à mostra, as chances de você conseguir o emprego diminuíam drasticamente, ainda mais se o emprego fosse em contato com o público. Não era permitido tatuagens em carreira militar, ou seja, você não seria um policial se tivesse tatuagens.
Existiam muito poucos profissionais nesse ramo, as tatuagens não tinham cores, ainda um comércio claro de pigmentos seguros para a epiderme.
Por isso muitas tatuagens eram feitas com Nanquim, que era uma tinta encontrada com mais facilidade. Embora os métodos utilizados para se faze-las varia muito, com muita sorte você encontraria nas quebradas, alguém que riscasse com qualidade.
Muitos faziam um desenho à La PAPILON e com algumas agulhas finas e bem presas entre si e as mergulhavam no Nanquim e pacientemente iam furando a pele sobre o contorno do desenho.
Óbvio que esse processo gerava uma dor horrível e depois havia uma segunda etapa pós cicatrização, pois a cada espetada das agulhas nem todas tinham a mesma intensidade alcançando a parte da pele onde a tinta se fixa, então era necessário uma segunda ou uma terceira sessão.
Havia também a cultura de que só marginais e que tinham tatuagens, muitas delas feitas dentro de presídios.
Sem entrar nos detalhes de significados que as tatuagens lá feitas poderiam ter, o fato é que elas eram feitas com algum tipo de tinta inventada ou de parede, que os presidiários confeccionavam. Elas viriam a ser bem parecidas com as feitas pelos jovens que usavam Nanquim. Isso talvez tenha ajudado na propagação de sua má reputação. E se bem me lembro, as tatuagens ditas artísticas começam a surgir com força no meio dos anos 80.
Lembro-me de visitar um ateliê no centro de Santo André com amigos não punks e nessa época, um tatuador de nome Stoppa, enfim um simples dragãozinho de menino do Rio, custava uma fortuna, fato que desencantou-me o interesse.
Sabendo tudo isso à priori, vim a saber que na medida que ia melhor conhecendo Makbacker, que os skinheads tinham um lugar específico onde gostavam de se tatuar, não perguntem o porquê. Só soube disso no dia que ele, no escritório, nos mostrou sua recém arte feita na pele.
A tatuagem me causou um grande impacto, pois nunca havia visto nada parecido. Era uma caravela dessas iguais às dos desbravadores dos mares e tampava todo o seu abdômen; os riscos eram finos e precisos, com riqueza em detalhes e as sombras tonalidades me impressionaram muito. Clareou-se para o real significado ao qual eu vi escrito lá do outro lado da cidade no centro de Santo André, mais especificamente na rua Primeiro de Maio. A frase escrita TATUAGENS ARTISTICAS.
Depois soube que ele era morador da Vila Mariana, um bairro que não é exatamente de pessoas ricas, mas é relativamente próximo a Paulista. Lá surgiram a banda Ira, a banda Lune, que tinha Atriz Marisa Orth como cantora e se não me engano, Maurício Pereira, ex Mulheres Negras, também eram de lá. A própria sede com escritório da Revista General, onde o Cipra trabalhou também era lá. Enfim, era um bairro mais para se classificar como artístico do que pompas de bairro nobre, no sentido financeiro, óbvio.
Mas o meu olhar ainda dizia que esse não é um bairro que um skinhead moraria – puro preconceito infantil de adolescente.
O fato é que com o decorrer do tempo fui percebendo, que apesar de tudo, ele era um cara caído, digamos, como nós que pegávamos ônibus, éramos assalariados e tudo mais.
Mas um fato que aconteceu, se não me engano, no show de uma banda punk chamada Toy dolls, um skin chamado Paraná subiu ao palco e desferiu uma direita bem no rosto do vocalista, dizem que esse show o pau quebrou, mais do que cantou e o Makbaker narrava num vídeo onde ele aparecia trocando porrada com dois punks de uma vez.
No vídeo era nítido quem era ele de fato, lembro depois que o próprio Cipra me disse que ele era um exímio lutador, óbvio, disse com outras palavras.
Com o decorrer do tempo aquela primeira impressão começava a se desfazer, lembro-me que caminhávamos até um ateliê de tatuagens levados por ele, onde o Cipra faria uma de suas tatuagens; lembro também que havia TV onde, acreditem vocês, para variar, noticiava-se que os yanks haviam entrado em guerra hahaha, que grande surpresa não?! Acho que era contra o Iraque, não me lembro bem.
Os redutos dos Skins

Mudando de ares, era sabido por mim que havia dois lugares onde os skins do ABC ficavam, um deles é um bairro feito pelos ingleses que para quem não sabe, foram eles que construíram a malha férrea de São Paulo. Uns diziam que os relógios que ficam no alto da estação da Luz lembram alguns relógios de Londres, não sei até que ponto isso é verdade. Um fato que a estação da Luz, antes de sofrer algumas modificações, vista internamente, era algo que me causava um sentimento de prazer que não saberia explicar em palavras, mas a grandiosidade ao olhar para cima e ver aquele teto suspenso, bem acima do nível da rua e a plataforma de embarque estar bem abaixo do nível da rua, te coloca em uma percepção ímpar, muito diferente das estações de metrô, sem contar os detalhes em madeira, corrimão com madeiras seculares provavelmente, as dezenas de degraus que haviam após as passagens pelas bilheterias e davam acesso à plataforma de embarque, onde havia bancos, feitos de madeiras, talvez não muito confortáveis, mas feitos para acomodarem um bom número de pessoas. Tenho a impressão que ao privatizarem, os responsáveis parecem pertencer a essas faculdades onde não há nenhum tipo de sensibilidade ao paisagismo.
Mas voltando ao assunto, a última passando pela estação de Santo André, e mais algumas chegava em Paranapiacaba.
Quem estiver lendo esse texto e não conhecer essa cidade, fica a dica para uma viagem. Por ser a última cidade antes da serra que leva ao litoral de São Paulo, a natureza se faz presente com trilhas e estradas bem legais, cachoeiras e por estar perto da serra tem neblina presente, que lembra a London fog, assim ouvia-se dizer que os trabalhadores ingleses que construíram tudo por ali, inclusive a singela arquitetura das casas.
Paranapiacaba foi escolhida pelos skins do ABC como um local de reunião, era um local calmo até os anos 90, não sei se mudou.

O outro local que eu sabia que os skins se reuniam era no Paço Municipal de Santo André, próximo a estátua de João Ramalho que coincidentemente da origem ao bairro, onde esse que vos fala se criou.
Quando íamos ao centro, eu e meus amigos não punks, gostávamos de passar bem próximos a eles, que sempre ficavam numa boa, se ninguém mexesse com eles e com suas garotas que também ficavam e isso era o motivo que nos fazia aproximar.
Observá-las era um barato a parte, pois o visual delas era bem interessante, algumas usavam franjinhas no cabelo com malets, outras usavam um chapéu que não sei, mas fazia lembrar senhores de idade, que já vi chapéus parecidos, e algumas saiotes e suspensórios.
Uma noite quando morava na cidade São Bernardo, ao passar de motocicleta indo para Santo André próximo ao Paço municipal, vi um grupo grande de skins se dirigindo para o paço Municipal, cruzando a rua havia um outro grupo que ia para mesma direção, o que me fez diminuir a velocidade para eles atravessarem – quando para minha surpresa, irrompeu de repente e quase saltou em minha garupa, o Skinhead Makbacker.
Nessa época, eu trabalhava em outro lugar e havia me afastado deles. Nesse dia tive a certeza que ele sempre foi um skinhead e cheguei a cantarolar.
O tempo passa, tudo modifica, inventam modas, nada nos transforma. Vida longa SKINHEAD.
Claudio Pereira
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Texto maravilhoso, Cláudio!
Viajo nas suas historias muito bem contadas.
Abraços punks!