Ficha de leitura
Título: A Curva do Rio[1]
Autor: V. S. Naipaul[2]
Editora: Bibliotex Editor S.L. ©
Tradução: José Vieira de Lima
Ano de publicação: 2003
Género literário: Romance
Número de páginas: 351

Resumo: Uma pequena cidade situada na curva do rio, algures num país africano próximo do Uganda – que não é explicitamente referido – é o cenário de quase toda a narrativa. Salim é um comerciante de origem indiana, imigrante[3], educado na religião muçulmana, o novo dono de um estabelecimento comercial nessa cidade, em resultado dos seus negócios com Nazruddin, a quem está ligado também por laços comunitários e quase familiares.
Salim é expedito, astuto, intuitivo e ponderado nos negócios, conhece os homens e a dinâmica das relações sociais e demonstra ter um olhar muito incisivo sobre o quotidiano do país onde se instalou, com as suas contradições, hábitos, perigos e rotinas. A permanência no país permite-lhe intuir o clima e as mudanças políticas e sociais, as tensões étnicas… Saber onde e quando pode mover-se, com quem falar, quais os canais a acionar para se manter vivo e fazer negócios.
Ao longo da narrativa conheceremos também personagens que têm uma ligação com Salim e acrescentam profundidade e realismo ao romance: a hábil comerciante-marchande e feiticeira Zabeth e o seu filho Ferdinand, rapaz introvertido e estranho que vai subindo metodicamente os degraus da escada social; o submisso, dissimulado e astucioso Metty ou Ali, cuja relação com a família de Salim se perde em longínquas memórias – e que permite acessoriamente lembrar a questão do abandono parental e do papel desigual dos membros do casal, em função do estatuto que cada um se atribui; Indar, o amigo pedante, conferencista, que reaparece na cidade ainda com cicatrizes de mágoas antigas em carne viva, encarnando o perpétuo estrangeiro; o insólito casal Raymond e Yvette, protegidos do regime…e vários estrangeiros que ali se encontravam por via de motivações díspares: Shoba e Mahesh, o grego Noimon, o padre Huismans …
Salim consegue estabelecer uma sólida teia de relações, saudável, amigável e distrativa, como uma família de substituição que se constrói tendo por base afinidades e o sentimento comum de isolamento. Percorremos acontecimentos marcantes do país caraterizados por episódios de violência, escaramuças, corrupção constante, instabilidade, demagogia, tal como alianças e disputas étnicas. O ambiente urbano revela desagregação social, degradação das instituições, desejo de vingança e aproveitamentos políticos. O chamado povo vai assim navegando ao sabor dos dias e das determinações do Grande Chefe, um líder populista e despótico, que promove o culto da personalidade, num cenário pós colonial a abarrotar de slogans motivadores e fotografias gigantes. As pessoas tentam sobreviver e adaptar-se a todo o tipo de transformações num contexto em que as regras do jogo mudam constantemente ou deixam simplesmente de existir. Por vezes nada parece fazer sentido e a luta de uns e outros destina-se apenas a assegurar a sobrevivência a curto prazo.
Salim mantém-se na cidade durante muito tempo até a pressão se tornar insustentável, e aí é compelido a partir. Corre incontáveis perigos, encontra-se demasiadas vezes na curva apertada da vida à beira do abismo, de onde escapa por um triz. A cidade que se ergue na curva do rio é muito exuberante, cheia de cor, sons e cheiros, nem sempre suaves e aprazíveis. É uma cidade de vida e de morte, como muitos locais rio abaixo e floresta adentro, ritmada pelas idas e vindas do vapor. Nessa cidade nascem rapidamente zonas para as novas elites, como a Cidade Nova, onde membros de castas superiores vivem confortavelmente, com apontamentos de um luxo algo artificial, instalados em belas poltronas aveludadas e bafejados pela suavidade dos ares condicionados, pela sorte efémera e pela elegância.

Na Cidade Nova discute-se política e sociedade, os debates repetem-se e normalizam-se as soirées das elites intelectuais, apadrinhadas pelo Presidente. Mas como nem tudo é o que parece e a proteção institucional é volúvel, a Cidade Nova também é palco de traições, segredos, decadência e frustrações.
O romancista oferece-nos o retrato de uma certa África pós colonial caraterizada pelo desassossego, esperança desesperada e contradições, pela vontade de apagar e esquecer a herança colonial e todas as suas marcas; de reparar injustiças, discriminação e a supremacia do poder colonial, de construir uma sociedade alicerçada noutros valores, promovendo uma certa visão de nacionalismo: não aquele que integra, mas o que exclui, um nacionalismo fraturante. Porém, a realidade é dececionante para muitos, nacionais ou estrangeiros que ali se haviam fixado vivendo dos seus pequenos comércios. Naipaul fala-nos da prostituição, da vida noturna, da insegurança e da extraordinária capacidade de adaptação de todas as pessoas, tendo em mente a sobrevivência.
É interessante constatar como até a linguagem se altera em tempos de revolução, de mudança de regime, como de repente todos passam a ser citoyens e citoyennes, encarnando personagens perante si mesmos e perante a sociedade. Salim estabelece relações fortuitas com mulheres, através de contactos casuais, episódicos ou com expetativas de futuro, surpreendendo o leitor com acessos de brutalidade insuspeita. Parece almejar um casamento com alguém da sua comunidade, a quem já estaria prometido há muito (este pormenor exalta a preponderância da cultura de origem), mas isso não o impede de colecionar relações ocasionais sem qualquer vínculo ou mesmo de viver uma intensa paixão secreta, arriscada e proibida.
Toda a sua vida é compartimentada e se processa aos solavancos, gerindo negócios, afetos e o quotidiano. A sua atitude protetora e pedagógica com Metty e Ferdinand, mesmo que aparentemente desprendida, não deixa de ser notável, como se se sentisse responsável pelos dois jovens. Salim exerce sobre eles uma vigilância discreta e irregular, reveladora de uma certa tendência para proteger, acarinhar, escutar e educar, como se de uma experiência de parentalidade se tratasse. Ele pode ser uma espécie de irmão mais velho, padrinho, patrão atencioso, protetor, tutor ou mentor. Em diversas ocasiões assumirá essas facetas, sem, no entanto, se imiscuir na intimidade de cada um deles, à medida que vai reconhecendo a sua autonomia e a sua própria incapacidade de intervir de maneira mais explícita.
O leitor procurará talvez descobrir, como eu, de que país se trata, quem é o Grande Chefe e onde se encontra a misteriosa cidade. Talvez chegue a uma conclusão, pois as pistas são numerosas (geográficas, circunstanciais, relacionadas com pormenores linguísticos). Creio que o facto de o autor não ter indicado claramente alguns cenários é propositado e permite universalizar a narrativa. O risco é assumir que a África é um continente homogéneo e semelhante para onde quer que se vá e generalizar aquilo que é particular a uma época ou região. Creio que as opiniões do narrador podem gerar controvérsia em alguns pontos muito específicos da narrativa, mas como leitora também gosto de me sentir espicaçada, para não adormecer no discurso monocórdico e inteiramente consensual de muitas obras que nos chegam às mãos. Devemos ler e pensar, para concordar, refutar ou simplesmente tomar nota de algo que nos é estranho. Para o leitor português ou lusófono, nesta belíssima tradução, há pormenores divertidos, en passant, como a referência a vinhos portugueses.
Se tivesse de resumir A curva do rio em pouca palavras diria que se trata do retrato de um país africano no pós independência (escrito com muita elegância e destreza), narrado através da jornada pessoal de um jovem comerciante, estrangeiro em nacionalidade, língua e costumes, que tenta dar um sentido à sua vida.

[1] Título original do romance: A Bend in the River, (Alfred A. Knopf (EUA) / André Deutsch (Reino Unido), 1979, Publicações Dom Quixote, 1990, 2001, Bibliotex Editor S.L., 2003). Nota: no Brasil, este romance foi publicado com o título Uma curva no rio (Companhia das Letras, 2004).
[2] Biografia do autor: “Vidiadhar Surajprasad Naipaul nasceu em Trinidade, em 1932. Passou a viver em Inglaterra em 1950, onde estudou, em Oxford. É autor de uma riquíssima obra de ficção e não ficção, tendo alcançado, depois de vários prémios, o mais alto galardão literário. Em 1990, V.S. Naipaul foi ordenado Cavaleiro, pelo seu serviço prestado à Literatura, e em 2001 recebeu o Prémio Nobel da Literatura.”
Fonte: https://www.wook.pt/autor/v-s-naipaul/16998
[3] Salim é por vezes referido como expatriado. A noção de imigrante convida o leitor a refletir sobre a subtil diferença entre ambos os termos e conceitos. N. da R.

![]()

Obrigada pelo seu comentário!