É preciso negociar com precisão…

É preciso negociar com precisão…

Vídeo:

Balada de Asfalto

Zeca Baleiro

Me dê um beijo, meu amor
Só eu vejo o mundo com meus olhos
Me dê um beijo, meu amor
Hoje eu tenho cem anos, hoje eu tenho cem anos

E meu coração bate como um pandeiro num samba dobrado
Vou pisando asfalto entre os automóveis
Mesmo o mais sozinho nunca fica só
Sempre haverá um idiota ao redor

Me dê um beijo, meu amor
Os sinais estão fechados
E trago no bolso uns trocados pro café

E o futuro se anuncia num out-door luminoso
Luminoso o futuro se anuncia num out-door

Há tantos reclamos pelo céu
Quase tanto quanto nuvens
Um homem grave vende risos
A voz da noite se insinua
E aquele filme não sai da minha cabeça
E aquele filme não sai da minha cabeça

Rumino versos de um velho bardo
Parece fome o que eu sinto
Eu sinto como se eu seguisse os meus sapatos por aí
Eu sinto como se eu seguisse os meus sapatos por aí

Há alguns dias atrás vendi minha alma a um velho apache
Não é que eu ache que o mundo tenha salvação

Mas como diria o intrépido cowboy, fitando o bandido indócil
A alma é o segredo, a alma é o segredo
A alma é o segredo do negócio

 

Eu também vendi minha alma a um velho apache e com ele aprendi a fazer sinais de fumaça que se dissolvem pelos ares…

“A alma é o segredo do negócio”

E com Anúbis vou me encontrar dia desses…para negociar.

E depois negociar com Caronte, as minhas moedas de troca…

Alguns me perguntam porque gosto tanto do Zeca Baleiro – ao acessar a obra dele, pela primeira vez, vi algumas palavras nas poesias do Zeca, que eu sempre usava nos meus textos poéticos. A identificação foi imediata e uma admiração por aquela rara sensibilidade.

Ele me representa e fala aquilo que gosto de falar e de escrever, não com a maestria peculiar do poeta Zeca Baleiro, é claro. No fundo, gostaria de escrever como ele, mas ele chegou primeiro e arrebanhou todas as palavras que estavam soltas por aí e as embrulhou tão perfeitamente que não ouso desembrulhar.

Eu queria dizer tudo isso a ele pessoalmente e certo dia, no final de um show fui dar um abraço  e disse o quão grande poeta é, da minha admiração por sua poesia. Ele me respondeu: – Poeta é Carlos Drummond de Andrade, eu não sou nada. Ele foi tão humilde, como é do seu feitio e dali em diante, não só admiração, ganhou o meu eterno respeito.

E por isso, quando quero dizer alguma coisa e não sei como, sempre a música e a poesia do Zeca Baleiro são meus guias, um mapa da minha essência e da alma que não tenho (em construção).

Como sou uma pessoa que gosta de negociar tudo – a vida, a morte, o ócio, o cio e as coisas mais banais, sempre escrevi  à minha maneira sobre isso, mas o Zeca faz isso de um jeito tão maneiro e eu fico de careta ouvindo e delirando: – como não escrevi assim?

Elizabeth de Souza

190526

 

Mundo dos Negócios
Canção de Zeca Baleiro

Baby
Vem viver comigo
No mundo dos negócios
Traz o teu negócio
Junto ao meu negócio
Vamos viver do comércio barato
De poemas de amor
Baby
O que mais importa
A poesia está morta
Mas juro que não fui eu
Tudo à minha volta são reclames
Desejos vãos
E sóis
Tudo à minha volta são reclames
Desejos vãos
E só
Baby
Vamos ao cinema
A vida é cinema
Já vi esse filme
Sempre o mesmo filme
Canções de amor se parecem
Porque não existe outro amor
Baby
O que mais importa
A poesia está morta
Mas juro que não fui eu
Tudo à minha volta são reclames
Desejos vãos
E sóis
Tudo à minha volta são reclames
Desejos vãos
E só
Baby
Vamos ao cinema
A vida é cinema
Já vi esse filme
Sempre o mesmo filme
Canções de amor se parecem
Porque não existe outro amor
Baby
O que mais importa
A poesia está morta
Mas juro que não fui eu
Tudo à minha volta são reclames
Desejos vãos
E sóis
Tudo à minha volta são reclames
Desejos vãos
E só
Cidades vertiginosas, edifícios a pique
Torres, pontes, mastros, luzes, fios, apitos, sinais
Sonhamos tanto que o mundo não nos reconhece mais
As aves, os montes, as nuvens não nos reconhecem mais
Deus não nos reconhece mais
Deus não nos reconhece mais
Deus não nos reconhece mais
Deus não…

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Sobre Elizabeth Souza 446 Artigos
Elizabeth de Souza é coordenadora e editora do Portal Entrementes....

4 Comentários

  1. O ócio tão fundamental para ler e escrever poesia.
    Eu diria para mim poeta é Fernando Pessoa.
    Mas gosto da Poesia contemporânea. E sorvo.
    Poesia nas redes . No celular.

    Poesia

  2. Um dos melhores shows que já fui na minha vida, foi o show do Zeca Baleiro na “Beira do Riacho” em Monteiro Lobato. Foi mágico!

  3. Joka, talvez Faria a gentileza de reconhecer que o poeta do meu coração é Fernando Pessoa…ele mora dentro de mim, desde os primórdios dos tempos…mas vamos caminhando e tropeçando em outros poetas e poemas que preenchem nossos espíritos rebeldes de incansáveis buscadores do despertar da consciência. Zeca Baleiro fala por mim, na linguagem que eu gosto e me atrai…Fernando Pessoa é todo o meu ser em sentimento, emoções e o entendimento das coisas das mais elevadas até as mais baixas, num eterno paradoxo filosófico. E de vez em quando me espanto com alguns versos do Menor do Chapa, só para derrubar os padrões.

    Valeu!

  4. Querida amiga Marlene!
    Realmente inesquecível, bom demais.
    Eu ouviria Zeca Baleiro o dia inteiro sem me cansar, como gosto de ouvir a nona sinfonia de Beethoven. Vou entrando por um mundo claro/luminoso e sombrio/melancólico ao mesmo tempo, uma sensação de puro êxtase.
    Valeu!

Obrigada pelo seu comentário!