Não, isto não é uma orelha. Não há explicação! Há, sim, um rumor delineando a linguagem fugidia, mas com pulsões subliminares. Mas negaremos recorrer à análise semântica deste livro pulsional, que corre, corre, corre, pelos instintos mais primários. Talvez medo, fuga, mas não de forma covarde, como se fossem linhas de fuga, territórios não vazados pela dicção do arrependimento. Este pulso ainda pulsa, mesmo na leitura viciante, desta pequena pérola poética chamada “Limbo” (Litteralux, 2026), do poeta Sebastião Ribeiro. Entre lugares, entre espaços, a linguagem do autor procura a ausência de dualidades — bem e mal, certo e errado —, e dá vazão talvez ao processo dialético entre estar bem ou se afundar no atavismo do niilismo. A poética contundente de Sebastião não traz reza: traz contradição, dicção e canção.
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Abaixo, segue a entrevista com o poeta.

Fernando Andrade: O mal não se explica; talvez semiotizar seria a palavra de tal espiritualidade. No seu livro, o eu-lírico foge do maniqueísmo e entra dentro de um campo de luta entre luz e escuridão, razão e loucura. Fale um pouco destas distensões.
Sebastião Ribeiro: Escrevo e desenvolvo poesia dentro do que me parece sincero e defensável e admito as imperfeições, a rebeldia, as contradições, o incontrolável no homem, na Arte, na poesia e tudo entre e através. Dito isso, o momento de vida que a escrita de “Limbo” perpassou foi de admissão dos riscos em que eu punha minha existência e os que me rodeiam, nos seus diversos campos, especialmente o afetivo, social e existencial. Foi o momento em que fiz terapia pela primeira vez, um momento inegável de fragilidade. Foi o momento em que precisei me expressar verbalmente de duas formas, que para mim, pareciam distintas: a poética e a diarística. Uma mais elevada e esculpida, aberta à experimentação estética e metafórica; e outra, objetiva, crua, muitas vezes tão mundana e piegas que doía. Dentro dessas duas esferas, há interseções, camadas, vozes. A poesia de “Limbo” traz parte desse vórtice em que eu estava. Com um pé no que poderia ser o fim e outro na esperança e futuro, um pé entre a necessidade de destacar e enfrentar o mais racionalmente possível uma questão e o delírio de momentos fugazes, de prazer, uma névoa de limerência. Não que esses processos não se mostrem nas obras anteriores, mas nesta se tornaram mais óbvios e limitantes. Confesso que tive receio de trazê-lo a público. Mas depois de conversas com amigos, poetas ou não, recordei da máxima de Manuel Bandeira, que carrego desde meu primeiro livro: “Não quero mais saber do lirismo que não é libertação.” A poesia em “Limbo” me parece válida.

F. A.: Poucos poetas sabem utilizar a ironia na poética. Você faz isso muito bem. Sua ironia é destilada como uma aguardente no ponto: queima e estonteia. É filigrana e prática.
S. R.: Os anos de escrita me fazem acreditar que uso a ironia nem sempre de forma intencional, neste e em outros livros; muitas vezes é simplesmente como lido com situações dentro e fora da literatura. Sinto que ela é ferramenta de negociação, mas também resposta ao que me parece absurdo, ao que está fora de controle, ao que me decepciona, às múltiplas constatações de incapacidade frente ao que poderia ser a vida e o mundo.

F. A.: A Divina Comédia do Dante me passou pela cabeça, como se as ações humanas pudessem passar pelo paraíso, purgatório e inferno — e a linguagem acompanhando este périplo pelas três esferas celestes. Seu livro dialogo com isso?
S. R.: Pena que “Limbo” é menos mitológico que espiritual (risos). É suspensão que se conforma com a insinuação de “paraíso”, no fim das contas. A humanidade na obra é menos espera em purgatório – essa sala de triagem é a única realidade. Mas concordo de certa forma com o citado périplo das ações humanas e, como a linguagem, artística ou não, é o veículo, o caminho, a tentativa de resolução e, talvez, uma forma de expiação.

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Fernando Andrade, crítico literário.
Autor, entre outros, do livro Obras são morfemas.
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