Ficha de leitura
Título: O Testamento Francês[1]
Autor: Andreï Makine[2]
Editora: EDIÇÃO «LIVROS DO BRASIL» LISBOA ©
Tradução: Clarisse Tavares
Ano de publicação: 1996
Género literário: Romance
Número de páginas: 251

Resumo: Neste romance, uma autobiografia ficcionada, o autor franco-russo explora a sua história familiar e percurso de vida, enfatizando a personagem central e feérica da avó francesa, uma elegante senhora, lúcida, ponderada, culta e corajosa, que viveu várias guerras e adotou a Rússia como sua morada definitiva. O narrador conta-nos a sua infância e a relação de cumplicidade com essa invulgar avó, Charlotte, ocupa grande parte da narrativa.
Ficamos a conhecer as movimentações dos seus ascendentes entre os dois países, as atrocidades da guerra, de todas as guerras, e a maneira como homens e mulheres se comportam em circunstâncias extremas, de fome, de frio e irremediável pobreza, de insegurança permanente, perigo, incerteza e crueldade. Optei por escrever sobre este romance ao cabo de algumas semanas após a leitura. Sem notas específicas, sem apontamentos minuciosos. A ideia é conservar apenas os aspetos mais marcantes e perenes, aqueles que me acompanharão como leitora ao longo do tempo e após outras leituras. O estilo de Andreï Makine é poético, suave, cheio de humor e de elegância. Fala-nos de relações e de sentimentos, da sua infância e juventude, das expetativas e sonhos, mas também de condições de vida extremamente duras, com as palavras certas, poupando-nos a um lirismo desajustado, mas sem nos cegar com a intensidade do realismo cru e ofuscante.

O leitor ficará a conhecer a complicada teia de ligações familiares e a maneira como as pessoas se comportavam num tipo de sociedade que talvez nunca tenham conhecido. Onde imperavam códigos de conduta que obrigavam o cidadão a uma coreografia social que podia ditar-lhe a morte ou a sobrevivência, alicerçadas em pormenores. Estes conceitos são válidos tanto numa Rússia pós-czarista, e na URSS que acabava de nascer, como numa França pós-guerra e constituem, por assim dizer, uma espécie de esboço de um manual de sobrevivência. O narrador escorrega graciosamente entre estes dois ambientes e espaços, mas, na verdade, são muito mais do que dois, pois atravessamos igualmente diferentes épocas e contextos.
Registo com muito agrado a minuciosa descrição das paisagens e dos ambientes, do clima severo na estepe siberiana, os diálogos, a sobriedade e contenção, que não relegam a emoção para segundo plano: ao contrário, agudizam todas as impressões, sentimentos e cogitações. O romance questiona-nos sobre o peso das recordações, do exílio e do luto, e como podem determinar parte importante do que somos. Como convivem e interagem culturas distintas e pontualmente antagónicas numa mesma pessoa?

A questão linguística, o amor pela literatura francesa, transmitido pela avó, todas as memórias de Paris e atitudes vinculadas a uma língua e cultura, também são temas trabalhados com mestria nesta poderosa narrativa que encoraja uma reflexão sobre identidades plurais. Em que língua-casa-abrigo se vive e se pensa, em que língua se sente? Crescemos rodeados de palavras e atmosferas que se refletem no que dizemos e na maneira como o fazemos. Este pormenor do romance tem um significado singular para mim, pois exploro também no meu quotidiano essa pertença a vários territórios da imaginação e da memória. Talvez o aspeto mais excitante de O TESTAMENTO FRANCÊS – um legado marcadamente simbólico – seja a forma como o narrador, o jovem Aliocha, informa (sobre), reformula e interpreta os diferentes espaços culturais e linguísticos que estão na sua génese, distintas épocas também, reminiscências e luzes, história e fantasia, com objetividade e nitidez, mas sem descurar a graça ou a inocência.

[1] Título original do romance: Le Testament Français (Éditions Mercure de France, 1995).
[2] Biografia do autor: “Andreï Sergueïevitch Makine (nascido em 10 de setembro de 1957) é um romancista francês. Também publica sob o pseudónimo de Gabriel Osmonde. Os romances de Makine incluem Dreams of My Russian Summers (1995), que ganhou dois dos principais prémios franceses, o Prix Goncourt e o Prix Médicis. Foi eleito para o assento 5 da Academia Francesa em 3 de março de 2016, sucedendo a Assia Djebar.”
Fonte: Bertrand livreiros

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