Vale de lágrimas!
“A maior desgraça deste mundo é ser Fausto sem Mefistófeles…” (Álvares de Azevedo)
Essas foram as últimas lágrimas da minha vida, disse ontem… e hoje, vi mais uma desgraça e começou tudo de novo.
Até quando vou estar neste vale de lágrimas sem fim, chorando por mim e por todos os habitantes deste planeta lotado?
É muito cansativo repetir tudo… nada de novo debaixo do sol, só as lágrimas que escorrem até se esgotar e então você pensa que agora tudo acabou, mas amanhã tem mais e depois de amanhã também…existe muito líquido em nosso corpo a sair pelas retinas quando o mundo desaba dentro da gente. Bom, a solução seria acabar com os amanhãs, bastaria isso. Sem amanhãs, sem lágrimas, sem dor.
Mas amanhã, vou tomar um bom café a 100 km daqui, só porque é lá e não aqui. E vou me sentir bem, como se nunca tivesse tido uma dor na vida. Sentir o gosto do café e da vida que corre vermelha pelas veias azuladas, faz esquecer o inferno. O café tem um poder mágico, quase alucinógeno. Inútil lutar contra o tempo, inútil lutar contra tudo que rola debaixo do sol. A nossa única certeza é aquela donzela esquálida que fica à espera na próxima esquina que vamos cruzar…mas não temos certeza de quando e nem em qual esquina ela estará e nem mesmo quando será o último instante…Penso que deveria ler mais Augusto dos Anjos, Álvares de Azevedo e Castro Alves, nos dias tão tão distantes das minhas delícias.
Ler os poemas mais tristes, porque ao descer aos infernos, posso permanecer por 3 dias, apenas isso…tenho que aproveitar o momento para ler esses poemas tristes, até cansar. E tudo recomeça com o sol nascendo de novo e de novo e de novo. E eu, aqui debaixo do sol, sem nada de novo, repetindo tudo, de novo…Que tédio!
Elizabeth de Souza
010726
LEMBRANÇA DE MORRER
Eu deixo a vida como deixa o tédio
Do deserto, o poento caminheiro –
Como as horas de um longo pesadelo
Que se desfaz ao dobre de um sineiro;
Álvares de Azevedo
“Se eu morresse amanhã!”
Se eu morresse amanhã, viria ao menos
Fechar os olhos minha triste irmã;
Minha mãe de saudades morreria
Se eu morresse amanhã!
Quanta glória pressinto em meu futuro!
Que aurora de porvir e que manhã!
Eu perdera chorando essas coroas
Se eu morresse amanhã!
Que sol! que céu azul! que doce n’alva
Acorda a natureza mais louçã!
Não me batera tanto amor no peito,
Se eu morresse amanhã!
Mas essa dor da vida que devora
A ânsia de glória, o dolorido afã…
A dor no peito emudecera ao menos,
Se eu morresse amanhã!
– “Se eu morresse amanhã!” do livro Poemas irônicos, venenosos e sarcásticos de Álvares de Azevedo
A dor
Chama-se a Dor, e quando passa, enluta
E todo mundo que por ela passa
Há de beber a taça da cicuta
E há de beber até o fim da taça!
Há de beber, enxuto o olhar, enxuta
A face, e o travo há de sentir, e a ameaça
Amarga dessa desgraçada fruta
Que é a fruta amargosa da Desgraça!
E quando o mundo todo paralisa
E quando a multidão toda agoniza,
Ela, inda altiva, ela, inda o olhar sereno
De agonizante multidão rodeada,
Derrama em cada boca envenenada
Mais uma gota do fatal veneno!
– Augusto dos Anjos, in “Eu e outras poesias”
Eterna mágoa
O homem por sobre quem caiu a praga
Da tristeza do Mundo, o homem que é triste
Para todos os séculos existe
E nunca mais o seu pesar se apaga!
Não crê em nada, pois, nada há que traga
Consolo à Mágoa, a que só ele assiste.
Quer resistir, e quanto mais resiste
Mais se lhe aumenta e se lhe afunda a chaga.
Sabe que sofre, mas o que não sabe
É que essa mágoa infinda assim, não cabe
Na sua vida, é que essa mágoa infinda
Transpõe a vida do seu corpo inerme;
E quando esse homem se transforma em verme
É essa mágoa que o acompanha ainda!
– Augusto dos Anjos, in “Eu e outras poesias”
…
Senhor Deus dos desgraçados!
Dizei-me vós, Senhor Deus!
Se é loucura… se é verdade
Tanto horror perante os céus…
Senhor Deus dos desgraçados!
Dizei-me vós, Senhor Deus!
Se eu deliro… ou se é verdade
Tanto horror perante os céus…
Castro Alves
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