Não sou
o que de carne aguda
se revestem as tribos
nem árido sopé em edifício que se implode
Não sou chama ave poste ou vendaval
nem máscara do que me imagino
Não sou oito nem oitenta
nem a pátina gris de quarenta voltas frouxas em torno do sol
em rotas de espera vã
entre fé cega e dúvida e fuga em quimeras
Não sou o que pinto em murais de efemérides
ou esgares de desencanto
Não sou nada do que me avulto
ou do que me abandona
nem mesmo o improviso em que me equilibro ao ouvir meu canto
que não é meu
tem a minha cara
Não sou o vulto que a vista alcança
que a fala fala
e a noite excreta
Não sou grande coisa
nem coisa alguma
nem o iluso desejo que em mim amadurece
como rio que brota e se busca
e mais se perde em se achar
Não me sustém a nobre vontade
se é vago o fruto do intento
e uma ilha ao longe a saudade
do fim do tempo
O que me molda
é a sombra do que não fui
a verdade que ainda não vi
o sonho
de quem não sei quem sou.
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