Na década de 70, tivemos a canção de protesto, guitarras sendo quebradas em pleno show-ditadura. Neste modesto 2026, leio inúmeros poemas nada clandestinos, manifestos em som e tom inconformista. Alegria ferina, dedo na ferida, o joio separado do trigo, mas a semente não deu para florir no jardim. “Boa moça” (Litteralux) é uma obra que não vai cogitar, mas “cogritar”, em alto e bom som, a trilha infértil de um jardim babilônico, onde o homem não nasce poema — nasce problema. Em seu novo livro, Luana Borato vem hifenizar, ou melhor, infernizar, os homens. Palavras de um crítico que adorou o livro.
Fernando Andrade
*
Abaixo, segue a entrevista com a autora.
Fernando Andrade: Vou usar a metáfora da noite de lua cheia: a palavra poética baila no escuro. Já é noite… mas a lua cheia faz, de sua luz, luminescências diáfanas — olhares agudos sobre nós leitores que amam a noite. Seus poemas parecem a lua cheia, que iluminam os maquiavélicos atos masculinos da fauna masculina. Baseada nessa observação, o que seu livro joga de luz sobre o homem contemporâneo.
Luana Borato: Agradeço a sensibilidade dessa leitura através da metáfora da lua cheia. “Boa moça” joga sob a luz a experiência de ser mulher e a constante negociação com esse estigma imposto pelo título. Mas gosto da ideia de invisibilidade noturna que você trouxe, porque ressoa com o que sinto sobre a masculinidade. Muitas vezes, as estruturas de poder operam justamente no escuro, na conveniência de não serem nomeadas ou observadas. Ao lançar essa luz diáfana sobre o trajeto do que é ser mulher, busco revelar o sentimento, a tensão e a tentativa de desviar, poema e poema, das armadilhas da sociedade patriarcal. É claro que, a poesia não tem o poder de remover esses perigos do trajeto, mas, assim como a lua cheia, ela nos devolve a clareza da visão. Ao nomear as sombras e transpor para o ritmo da escrita a nossa tentativa de fuga desse rótulo, eu busco transformar o medo em um exercício de observação. A masculinidade que aparece no livro é, portanto, um reflexo do ambiente em que a mulher precisa se mover. Ela é o pano de fundo que impõe a necessidade da nossa vigilância.

[FA]: Sua poética é uma mistura de dança; há ritmo, tom, melodia, e gume afiado sobre relações de gêneros. Queria que você comentasse sobre isso; sobre essa harmonia entre o riscado patriarcal, a estética do livro e suas nuances, linguagens.
[LB]: Eu ousaria dizer que essa harmonia ocorre quase como uma estratégia de sobrevivência. O ritmo dos versos tira o leitor para uma dança, fazendo com que ele se deixe envolver pela forma antes de ser atingido pela crítica, pela crueldade das relações de gênero que são abordadas. Não é apenas um recurso estético, mas se torna um meio de propagação da mensagem. Em alguns momentos trago a metáfora da fuga em zig zag, como quem tenta, a todo momento, fugir dessas linhas retas que foram desenhadas pelo patriarcado. Mas, aqui reforço para além do livro, apesar dos desafetos, aprendemos muito mais que fugir, mas a dançar nesse zig zig zá da vida.

[FA]: Há uma ironia ferina na sua voz poética. Mas, a meu ver, o livro continua sendo lírico sem nenhuma conotação agressiva. A ironia é proposital?
[LB]: O próprio título é uma ironia e, talvez, ela seja a única linguagem capaz de traduzir a dualidade de existir como uma “boa moça” no mundo. Existe uma ambivalência cruel na forma como a sociedade nos molda. Ao mesmo tempo que se anseia pela mulher submissa, criada para servir e obedecer, essa mesma figura é um alvo de forte rejeição e fácil descarte. O ser mulher, nessa sociedade, é um crime. Não um crime inafiançável, porque se paga um preço muito alto pela liberdade. Mas, ao mesmo tempo, e contraditoriamente, um crime que se julga digno de pena de morte. A ironia, assim como a dança, se torna um artifício para envolver o leitor nessa realidade que também é, no mínimo, irônica.

* * *

Fernando Andrade, crítico literário.
Autor, entre outros, do livro Obras são morfemas.
![]()


Obrigada pelo seu comentário!