Resistente morada

Resistente morada

Por Raul Tartarotti

Convidei a saudade para conversar. Em instantes me vi acompanhado de mim mesmo tão somente, e percebi que haviam duas criaturas travando aquele sentimento que flui pelos dedos, quase como um semblante ruim. Mas era apenas saudade, que florece e molha as flores de uma poesia. Alimenta, mas também retira um pouco de tudo. Por vezes deveriam virar semente, porque são eternas e devem voltar mais fortes para oferecer outra sombra de alívio. Outra existência primorosa que possa travar novas expectativas e proporcionar a realização de sonhos. A falta é um vazio simples, um lugar vago na agenda, um talher a menos na mesa, é mais complexa. Ela é a sombra que teima em ficar onde a luz já não está. Você abre um armário e um cheiro vem te visitar, não um perfume marcante, mas o cheiro da roupa lavada da casa da sua avó, mistura de sabão em pó e brisa do varal. Por um segundo, você não se lembra dela doente ou velha, lembra do jeito que ela arrumava os lençóis, com cantos perfeitamente esticados, e do som da sua voz cantarolando uma canção que ninguém mais conhece. Aí a memória some, mas o cheiro fica, e com ele, uma pontada no peito que não é tristeza é uma espécie de gratidão dolorida. Ela mora nos hábitos que ficam. Você ainda pega dois copos ao buscar água, antes de se lembrar que agora bebe sozinho. A mão ainda se estende para dividir um pedaço de notícia boba do jornal com alguém que já não está ao seu lado. O corpo tem memória, ele é um animal de costumes que se recusa a aceitar a nova geografia da solidão. Esses gestos fantasmas são as pegadas da saudade no chão da rotina.

Às vezes, ela é silenciosa e amena, como a luz do final de tarde que entra pela sala vazia, dourando o pó no ar. Outras, é uma visita barulhenta e desgrenhada, que chega com uma música na rádio, um pedaço de filme, o jeito de um estranho rir na mesa ao lado. De repente, você é inundado por um mar de um passado que não volta. E não há o que fazer a não ser deixar a onda passar, sentindo o sal do que foi, ficar nos lábios. Dizem que a saudade é a prova de que amamos.

Talvez seja mais do que isso. É a prova de que fomos transformados pelo outro. A pessoa se vai, o amor fica, e a saudade é o eco desse amor, reverberando nos cômodos vazios da alma. Ela não é um buraco, é um molde. A forma exata de quem partiu, impressa em nós.

E no fim, aprendemos a conviver com essa inquilina. Não a sufocamos de todo, pois seria como trair o que vivemos. Às vezes, até a convidamos para o café, olhamos juntas os álbuns de fotografias, e rimos com um sorriso que tem um pouquinho de lágrima no canto.

Porque a saudade é um paradoxo gentil, é a dor que sussurra: “olha como foi bom”. E enquanto ela durar, aquele gesto automático, aquele pedaço de luz, nos fizerem parar por um segundo, eles estarão vivos. Não como eram, mas como são: eternos na frágil e resistente morada que lhes construímos dentro do peito.

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Sobre Raul Tartarotti 125 Artigos
Natural de Gramado, Raul teve formação básica em Eng. Biomédica. É cronista em diversas publicações no Brasil e exterior, impressa e eletrônica. Estudou literatura Russa, filosofia clássica e contemporânea. Suas crônicas são de cunho filosófico e social, com objetivo de trazer reflexão ao leitor sobre temas importantes de nosso cotidiano.

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