Ô ô ô ô, Aurora

Sei que a época natalina inspira outros e mais nobres sentimentos. Mas é que acabei de resgatar, da minha caixa de e-mails, uma mensagem perdida e ainda não lida de meu amigo Josefredo Painieri Dantas, datada de fevereiro último, ou seja, dez meses atrás – em pleno reinado de Momo.

Patrulheiro das causas dos excluídos, discorre o Josefredo sobre o cunho politicamente incorreto que está implícito, ou explícito, na marchinha carnavalesca “Aurora”. Reflete ele:

Em 1940, ano da composição, brasileiras brancas correspondiam a 89% do total de Auroras no país, cabendo às pardas e negras apenas 11%. Minha pergunta: por que não batizar a música com o título de “Benedita”, nome onde as afrodescendentes predominam com mais de 80%? Por quê? Ou seja, “Aurora” é, antes de mais nada, elitista e segregacionista.

Aurora é também um termo latino que significa “amanhecer”, uma claridade visível antes do nascer do sol e que indica o começo do dia. Algo branco por natureza. Eis o racismo novamente, empregado de forma ardilosa no que parece ser uma inocente marchinha…

Se você fosse sincera…”

O primeiro verso, segundo ele, já seria criminosamente preconceituoso, pois coloca sinceridade como não sendo próprio ao gênero feminino, o que enseja crime de misoginia.

Um lindo apartamento, com porteiro, elevador e ar refrigerado para os dias de calor…”

O autor condiciona a virtude da sinceridade à ascensão social, na medida em que coloca Aurora como merecedora de uma vida digna desde que seja sincera. Raciocínio simplista e excludente.

Madame antes do nome você teria agora…”

O verso demonstra que, caso tivesse a sinceridade que dela é cobrada, Aurora seria aceita, admirada e promovida a madame, obtendo assim a aprovação da sociedade.

Ao final de sua mensagem, meu amigo se despede de mim convicto dos absurdos cometidos pelos autores, submetê-los (ou seus herdeiros) à justiça. Anuncia também o objeto de seu próximo estudo/denúncia: a também marchinha carnavalesca “Cabeleira do Zezé” e seus insultos explícitos à comunidade LGBTQIAPN+.

Esta é uma obra de ficção

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